SEGUNDO TURNO: SOBRE A COERÊNCIA OU INCOERÊNCIA DOS APOIOS

Os candidatos à presidência derrotados ou partidos que fizeram parte dessas coligações, com o início do segundo turno, começaram a declarar apoio (ou não) a um dos dois concorrentes que restam: Aécio Neves e Dilma Rousseff.

Acredito que a maioria dos eleitores, tradicionalmente, não se guia muito por essas alianças ou declarações de apoio. Por exemplo: independente do posicionamento de Marina Silva, parte dos seus eleitores já está, com certeza, determinada a votar em um ou outro candidato ou a não votar em ninguém.

Tratarei apenas das candidaturas e partidos que considero mais relevantes nessa disputa. Não irei tratar de todo mundo. Vamos lá:

Luciana Genro (PSOL) e seu partido não apoiam ninguém, mas se colocaram (claramente) contra a candidatura de Aécio “vetando-a”: COERENTE. O posicionamento de Luciana e seu partido, obviamente, tende a favorecer Dilma. Mas é coerente. Se o partido se coloca como defensor de ideias diferentes dessas duas candidaturas (PSDB e PT) não faria sentido apoiar um ou outro. O que não significa considerar as duas candidaturas como a mesma coisa. O posicionamento ativo contra Aécio significa dizer que Dilma, ainda que ruim, é menos ruim que o seu concorrente. Análise com a qual eu concordo.

Eduardo Jorge (PV) apoia Aécio Neves: COERENTE. Muita gente se disse surpresa com isso. Essas pessoas, me desculpe, são ignorantes no tema. O partido de Eduardo Jorge, ao menos em São Paulo, sempre apoiou o PSDB e aliados. Repito: sempre. E mesmo com a gestão desastrosa dos recursos hídricos aqui no estado, continua e, ao que tudo indica, continuará apoiando. Respeito Eduardo Jorge: ele foi uma das figuras mais importantes para que hoje o Brasil possa ter um Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS está longe de ser uma beleza, é claro. Mas antes nem isso nós tínhamos. Eduardo Jorge também foi Secretário do Verde e Meio Ambiente nas gestões irmãs de Serra e Kassab na prefeitura de São Paulo. Ou seja: já é aliado dessa gente faz muito tempo.

Pastor Everaldo apoia Aécio Neves: MAIS DO QUE COERENTE. Quando ele fala que vai “passar tudo” pra iniciativa privada está dizendo, de forma bem tosca, que compactua com as ideias privatizantes do candidato Aécio Neves.

PSB apoia Aécio Neves: INCOERENTE. O partido no qual Marina Silva pegou carona e se candidatou nas eleições desse ano sempre se apresentou como uma legenda com ideias bem diferentes das de Aécio Neves/PSDB. Teve entre os seus fundadores, nos anos 40 do século passado, gente brilhante como o jornalista Joel Silveira e o pensador Antonio Candido. Desde o início, se colocava como um partido da chamada esquerda democrática (que tem várias definições possíveis, mas darei uma: que se coloca em oposição, no campo da esquerda, aos, quase sempre, sectários e autoritários partidos de esquerda de orientação stalinista). Na refundação do partido, após a nossa última ditadura, um dos seus principais líderes foi Miguel Arraes. O PSB, durante muitos anos, foi aliado, no plano federal, de Lula e Dilma. Ou seja: estaria, em tese, muito mais próximo dos petistas do que dos tucanos. Contudo, talvez esse posicionamento seja coerente com as mudanças ocorridas nesse partido mais recentemente (que hoje tem cada vez mais figuras tidas, até então, como de direita em suas fileiras). Luiza Erundina, que é voz cada vez mais isolada nesse partido, se posicionou sobre esse apoio chamando-o de “incoerente” e “vexatório”. Felizmente, o PSB parece dividido (o que mostra um mínimo de coerência com a sua história).

REDE apoia Aécio Neves, branco ou nulo: TOTAL E BURRAMENTE INCOERENTE. Pega muito, mas muito mal a Rede (partido de Marina Silva que ainda não existe formalmente) ter essa postura tão, pra dizer o mínimo, ambígua. Uma postura de tamanha indecisão e covardia que quando eu a ouvi pela primeira vez, na fala de uma repórter do Jornal da Globo na madrugada de quarta pra quinta-feira (8/9 de outubro), fiquei totalmente confuso. Tentei, minutos depois, explicar a decisão da Rede pra minha esposa e não consegui. Juro! Dou um desconto porque ambos estávamos com sono. Mas lembro muito bem da sensação que o posicionamento ambíguo da Rede criou nas minhas entranhas: essa é a boa, velha e matreira “velha” política. Explico.

    1. A Rede sugere que o seu eleitor vote em Aécio… Ou não. Pode também votar em branco ou nulo. Parece uma estratégia muito esperta de não alinhamento firme com esse ou aquele candidato, mas, sempre na minha avaliação, manda uma mensagem clara quando decifrada: nós, da Rede, sempre nos apresentamos como um caminho diferente do PT e PSDB, mas, na verdade, estamos mais próximos do PSDB. Todavia, como poderia pegar mal assumir isso lhe daremos três opções com apenas um nome.
    2. Essa postura pra lá de ambígua indica um partido, e isso pode ser algo saudável, dividido. A Rede, que se apresenta desde o começo como uma “terceira via”, seria mais coerente se se posicionasse de forma neutra. Afinal, entendam, não sou eu quem diz, mas o próprio partido: somos diferentes tanto do PT quanto do PSDB. Se alguém ainda acreditava nisso (coisa na qual eu jamais acreditei), agora ficará difícil continuar com essa crença. A Rede, com essa postura, antes mesmo de nascer, ruma na direção de se tornar um partido politicamente inexpressivo (mais um entre tantas legendas nanicas ou de aluguel).

Marina Silva: quando ela se posicionar, eu me posiciono. Mas a demora não deixa de ser coerente.

SOBRE A APARENTE DISFUNCIONALIDADE DO MUNDO: CRÍTICA BEM ATRASADA AO FENÔMENO “TROPA DE ELITE”

José Padilha, com os dois filmes da série “Tropa de Elite”, foi acusado, por muitos, de ser fascista. Bobagem. Uma pena que uma palavra tão significativa seja usada de forma tão irresponsável e corriqueira. O que, aliás, tem contribuído para a sua banalização. Quem conhece a carreira de Padilha sabe que a acusação não se sustenta (sugiro pra quem ainda não viu, os documentários “Garapa” e “Ônibus 174”).

Padilha foi, no entanto, pouquíssimo acusado de ser raso. Ou seja: de oferecer pouca ou limitada crítica nesses dois filmes. E essa, na minha avaliação, seria uma acusação mais justa. Gosto de alguns aspectos desses filmes. Esteticamente, adicionou algo ao padrão iniciado por “Cidade de Deus” (hoje, convenhamos, mais do que desgastado).

Mas no campo da narrativa, nenhuma novidade. Embora seja compreensível a opção do Capitão Nascimento narrar os fatos. Padilha deixa claro, com isso, que é o ponto de vista do matador e não dele o fio condutor da história. Repito: gosto de alguns aspectos desses dois filmes.

No primeiro, Capitão Nascimento fala da guerra entre policiais e traficantes (na verdade, meros atravessadores; mas aí já é outra história). No segundo, o mesmo Capitão “descobre”, embora isso já esteja sugerido no primeiro, que policiais corruptos fazem negócios com traficantes e, às vezes, ocupam o seu lugar. E que, a partir daí, os novos donos desses territórios logo se associam a políticos e transformam essas regiões em currais eleitorais.

Nas eleições desse ano, candidatos no estado do Rio de Janeiro denunciaram que, em certas áreas, só era permitida campanha de determinadas pessoas. Ou seja: a denúncia do segundo “Tropa” é atual e certeira. Lamentei que Padilha não sinalizasse, ao menos na época, com um terceiro filme.

Sugeri, só na minha cabeça, é claro, até um esboço de roteiro para o fim da trilogia: agora o Capitão Nascimento avançaria mais em sua crítica e “descobriria” a relação entre políticos (que pareciam ser o ponto mais alto de todo o esquema) e a iniciativa privada (que investe nessa gentalha – e o termo investimento não é descuido – para ganhar muito dinheiro em futuras licitações e contratos públicos milionários).

Todavia, o grande furo crítico de Padilha não é a necessidade de, talvez, avançar. Mas sim de recuar. E assim conseguir ter uma visão melhor do todo. Nos dois “Tropas”, embora fique claro quem mais ou menos se beneficia de toda a bandalheira, o mundo, no caso o Brasil, nos é apresentado como algo totalmente disfuncional. A sensação, ao menos eu senti isso na época, é essa.

Usemos a polícia como exemplo, é claro. A maneira como a polícia brasileira foi constituída não favorece que ela possa investigar os crimes. O que soa surpreendente, afinal, não seria essa a missão principal dessa instituição? E quando investiga, a resolução desses crimes é baixa. Isso não se dá pelo acaso. É mera consequência do modelo de polícia que nós temos.

A polícia, no Brasil, foi criada como um aparelho quase que exclusivamente repressivo (e não investigativo ou preventivo). A sua estruturação nos moldes militares se justifica plenamente dentro dessa lógica. Trata-se de uma força de quase permanente ocupação. Sobretudo nos territórios mais pobres do país.

Uso o fenômeno “Tropa de Elite” pra contestar a afirmação de que o Brasil não deu certo. Não há, em qualquer parte do planeta, um país do nosso porte (em termos econômicos e populacionais), no qual a concentração de renda seja tão brutal. O modelo pensando pela nossa elite, nesse sentido, é um sucesso estrondoso. A disfunção é só aparente, ela tem uma função clara.

As consequências desse modelo de país são sentidas pela maioria e cria, naturalmente, uma sensação de caos. É um equívoco. Caos significa confusão, desordem. Nossa elite não está nada confusa quanto a sua missão nessa terra ou ao seu eterno direito ao saque. Há método na “bagunça”.

CHAMAR O ELEITOR DE BURRO NÃO VAI AJUDAR EM NADA

Nas últimas horas, com o resultado nefasto das eleições para o governo do estado de São Paulo, muitos escreveram e distribuíram imagens chamando ou comparando o eleitor paulista a um burro. Eu talvez até tenha curtido algumas postagens desse tipo no Facebook. Afinal, isso serve de alívio. Traz um certo consolo. Faz com que a gente se sinta melhor. Eu entendo. Mas vamos nos acalmar!

a) Chamar o outro de burro não vai mudar o resultado eleitoral.

b) Chamar o outro de burro nos desobriga a pensar em nossos possíveis erros. Fica fácil: se o cara é burro, ele será, obviamente, impenetrável a qualquer argumento. Logo, o descarto como uma figurinha repetida do álbum da Copa.

Eu sempre brinco. Já conheci muitos ignorantes na minha vida. Mas burro. Devo ter conhecido um ou dois em toda a minha existência. E olha que já conheci muita gente. Há uma grande diferença entre os dois termos.

Por exemplo: um analfabeto é um ignorante. No sentido de que ele ignora determinado conhecimento. No caso, trata-se de um iletrado. Ele ignora os códigos formais da comunicação escrita (que são as letras que formam palavras, que formam frases) que permitem que ele decifre o que está escrito. Mas isso não o torna burro. Burro é alguém estúpido. Sem inteligência. O que não tem nada a ver com ausência da educação formal.

Mas o que leva alguém, que não possa ser classificado como burro, a votar no Sr. Geraldo Alckmin? Pensei, por ora, em duas possibilidades:

1. A imprensa tradicional, os grandes veículos de comunicação, tem uma responsabilidade imensa na reeleição de Alckmin. Afinal, nada é culpa do governador. No caso da água, por exemplo. Há racionamento em várias cidades do estado. Em várias regiões da capital desse mesmo estado. São muitos os relatos. Ainda assim, a imprensa repercute coisas do tipo: o governador nega que um racionamento esteja em estudo. Mesmo ele já estando vigente. O máximo que um jornal paulista de grande porte conseguiu fazer foi dizer que certas medidas tomadas pela Sabesp poderiam, quem sabe, supostamente, mas ainda é cedo pra afirmar, equivaler a um racionamento. No caso da corrupção em licitações e contratos do Metrô e CPTM, ambas diretamente subordinadas ao Sr. Geraldo Alckmin, tudo virou somente um cartel de empresas safadinhas. Virou Caso Alstom ou Siemens ou coisa que o valha.

2. Os resultados demonstraram, mais uma vez, que o interior do estado de São Paulo foi determinante na vitória dos tucanos. E pra qualquer um que queira bater Alckmin e sua turma, esse é um aspecto fundamental a ser considerado. O interior de São Paulo é conservador e isso casa com o modus operandi de Alckmin? Sim. Provavelmente. Mas a vida no interior é muito, muito diferente daquela, por exemplo, de quem vive na região metropolitana de São Paulo. O custo de vida, geralmente, é muito menor. São outras as necessidades. Existe, talvez, uma necessidade menor da presença estatal em áreas cruciais como, por exemplo, transporte. Os caipiras (e não uso esse termo de forma pejorativa), não custa lembrar, são os descendentes dos bandeirantes. Os líderes dessas bandeiras viraram os barões de café e depois industriais. Os liderados todo restante. Bandeiras, diferentemente das Entradas, eram empreendimentos particulares. Muitas dessas cidades do interior nasceram dessas expedições. Mais do que cidades, eram empresas. O que eu acho que já pode explicar muita coisa. Ali, o Estado não existia. Continua, em boa medida, não existindo. E como avaliar algo que nunca existiu? Pra conhecer um pouco mais essa história, fascinante e brutal, sugiro o capítulo 7 da série “O Povo Brasileiro” (inspirado no livro de mesmo nome do antropólogo Darcy Ribeiro). Alckmin, esperto como é, trabalha muito a sua hegemonia nessa região. A agenda dele é muito focada em viagens pelo interior do estado. Lembrando a todos que aqui é ele quem reina, mas não governa, é claro. Além disso, o governo estadual mantém uma relação estreita com entidades privadas que prestam serviços em diversas áreas. Entidades ligadas a políticos aliados que usam dinheiro público em ações que, frequentemente, são meras promoções pessoais. Isso acontece, por exemplo, na área da assistência social. Obviamente, sobretudo em épocas eleitorais, essa rede é usada para beneficiar determinados candidatos. Embora nefasta, é uma prática inteligente. Você anula a existência dessa coisa chamado estado/governo. Coisa com a qual, afinal, o paulista, sobretudo do interior, nunca teve muita relação mesmo. E cria um vínculo de lealdade/gratidão daquela pessoa eventualmente beneficiada por uma organização ligada a um determinado político. O genial é que esses benefícios, na maioria das vezes, serão financiados por dinheiro público. Mas a questão é que o beneficiado dificilmente saberá disso. E mais: irá maldizer o Estado pela sua, aparente, omissão. Um Estado que, ironicamente, jamais será encarnado na figura do Sr. Geraldo Alckmin. Aí entra o trabalho da mídia de colocar a culpa em outro; como, por exemplo, o ultimamente bastante sacaneado São Pedro. Em suma: há uma simbiose de interesses no interior do estado que favorecem a política de cabresto tucana no século XXI. Arruinar isso é colocar em xeque a hegemonia tucana. A questão é: como arruinar isso?

Importante. Não estou considerando, na minha análise, eleitores que, clara e diretamente, se beneficiam desse modo tucano de governar. Como, por exemplo, os milhares de servidores públicos indicados para cargos sem a exigência de qualquer concurso público. Para esses, que precisam manter os seus empregos, a motivação eleitoral é muito clara.

Acho importante que quem se importa com o tema, comece ou volte a pensar nisso se não quisermos, daqui a quatro anos, colocar (de novo) toda a culpa em eleitores que, na verdade, nem sequer conhecemos. Quantas pessoas que dizem ter votado no Alckmin você, que me lê, conhece? Aposto que pouquíssimos.

Podemos até chegar à conclusão de que essa gente que vota no Alckmin é totalmente imperscrutável aos nossos apelos e argumentos. Que nenhum diálogo é possível e tal. Que o jeito é declarar guerra. Tudo bem. Podemos concluir isso. Mas acho que devemos gastar um pouquinho de energia com o assunto.

Precisamos pensar porque tanta gente ainda vota em certos candidatos. Mesmo quando eles nos parecem as piores escolhas. Porque a imensa maioria dessas pessoas certamente não é burra. Se a considerarmos assim, estaremos fazendo uma análise preguiçosa. E burra, é claro.

POR FAVOR, NÃO SEJA IDIOTA COMO EU FUI. NÃO ACREDITE NAS PESQUISAS!

1998. Foi quando eu parei de acreditar em pesquisas. Principalmente eleitorais. Sobretudo vindas de um certo Datafolha. Em deus eu já não acreditava desde o ano anterior.

Em 2 de outubro de 1998, a dois dias do pleito, foi divulgada uma pesquisa, pelo instituto já citado, com o seguinte e aterrador cenário na disputa pelo governo do estado de São Paulo: Paulo Maluf (31%), Francisco Rossi (18%), Mario Covas (17%), Marta Suplicy (15%) e Orestes Quércia (6%).

Como a nossa imprensa alardeou (BASTANTE) na época, corríamos o risco de ter um segundo turno entre Maluf e Rossi. Realmente, um horror. Muitos, como eu, foram ingênuos em acreditar nesses números. Votei em Mario Covas pensando que, ao menos, teríamos uma figura um tiquinho menos nefasta pra derrotar Maluf no segundo turno.

Os resultados oficiais, no entanto, foram bem diferentes. Se não acredita, basta checar os números na página do Tribunal Superior Eleitoral. Maluf continuaria na frente (com 32,21%), Covas (e não Rossi) ficaria em segundo (22,95%) com Marta coladinha na terceira posição (22,5%).

Marta Suplicy, afinal, tinha bem mais do que os 15% propagandeados pelo Datafolha horas antes da votação do primeiro turno. Rossi, apontado como segundo colocado pelo mesmo instituto de pesquisa, agora aparecia em um solitário quarto lugar (com 17,11%). Quércia estava, de fato, na rabeira da disputa (4,29%).

Covas foi para o segundo turno graças a uma vantagem de apenas 0,45% dos votos válidos em relação a sua concorrente Marta Suplicy. Exatos 74 mil 436 votos de diferença (o que é pouquíssimo considerando que São Paulo é o maior colégio eleitoral do país). Eu, como era ingênuo e bobinho, contribui pra isso com um votinho. Rimo pra não chorar. Mas eu aprendo com os meus erros. E isso jamais se repetirá.

O sociólogo e jornalista Laurindo Lalo Leal Filho lembrou dessa história no artigo “As pesquisas como elas são, a mídia como ela é”. O professor de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) avalia que as pesquisas “são cada vez mais importantes para o direcionamento das doações dirigidas às diferentes campanhas.” E acrescenta:

Prestam-se também para influenciar eleitores indecisos ou determinados a mudar o voto na última hora, deixando de lado a escolha inicial e optando por outra, não tanto de sua predileção, mas capaz de evitar o sucesso do maior adversário, criando o chamado “voto útil”. Sem falar na desmobilização de militantes antes do fim do pleito ao verem seu candidato desabando nas pesquisas.

A última pesquisa do Ibope, divulgada na terça-feira (23/09), afirma que o governador Geraldo Alckmin seria reeleito no primeiro turno. É possível? Claro que é. Eu devo acreditar nisso. Claro que não. Devo, na verdade, ignorar isso.

De acordo com o próprio Ibope (vamos lhe dar um voto de confiança), teriam sido ouvidos 2.002 eleitores, entre os dias 20 e 22 de setembro, em 96 municípios do estado de São Paulo. O levantamento foi encomendado pela TV Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo. Não é um dado desprezível saber quem pagou a conta.

Eu não estudei a fundo a metodologia utilizada nessa pesquisa. Mas façamos uma conta rápida: 2.002 eleitores de 96 municípios significam, em média, 20,85 eleitores ouvidos em cada cidade. Isso mesmo: 20 ou 21 pessoas (arredondando pra baixo ou pra cima) por cidade. Isso, convenhamos, não é lá um número muito significativo.

Ou seja: ainda que a pesquisa siga procedimentos éticos rigorosos, o universo analisado, quase sempre, será muito, mas muito restrito. Não confie em pesquisas do tipo. Mesmo as mais honestas, obviamente, têm uma série de limitações metodológicas. Vote em quem você tem vontade de votar. Isso é o que eu, hoje, chamo de “voto útil”.

GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN BATE NO SEU BOLSO

Os tucanos, com alguma frequência, se apresentam ao eleitor como os paladinos da boa gestão pública. Como gente que administra o dinheiro do contribuinte com muita seriedade, responsabilidade e respeito. A realidade, no entanto, é um pouquinho diferente.

Imagine o seguinte, caro leitor: você tem uma dívida de 46 reais na feira. Você não se nega a pagar (muito pelo contrário) e faz um acordo pra quitar o que deve. Paga, no total, por causa dos juros cobrados pelo feirante, 99 reais (muito acima da dívida inicial de 46 reais).

E se isso não bastasse, agora, além dos 99 reais já pagos, você ainda deve 191 reais para o agiota disfarçado de feirante. Tenho certeza de que, diante do absurdo, você diria para o feirante, com mais ou menos delicadeza, o seguinte: que porra é essa, arrombado?

Agora, coloque os mesmos valores acompanhados da palavra “bilhões”. Esse foi o acordo celebrado pelos tucanos, em 1997, na reestruturação da dívida do Governo do Estado de São Paulo. A dívida inicial era de R$ 46 bilhões. Desde então, o governo estadual, ou seja, você (que é paulista), já pagou R$ 99 bilhões. Mas, ainda assim, hoje devemos 191 bilhões.

Não por acaso, em junho desse ano, os conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE) recomendaram ao governador Geraldo Alckmin que procure fazer um novo acordo para o pagamento dessa dívida. Recomendação com a qual, aliás, eu concordo. O governadorzinho talvez tenha uma opinião diferente.

Na ocasião, o conselheiro mais antigo do TCE fez duras críticas ao acordo assinado há 16 anos (durante a gestão Mário Covas). Para Antonio Roque Citadini, a maneira como foi feita a reestruturação da dívida foi um “ato criminoso”. O “ato criminoso”, usando as palavras do conselheiro, foi concretizado pelo mesmo PSDB que hoje (mais uma vez) pede o seu voto.

“Somos vítimas, pagamos R$ 1 bilhão todo mês por uma dívida que nunca vamos conseguir pagar. Na ocasião, o TCE alertou que esse acordo era prejudicial. Tenho fé, mas não vejo luz no horizonte”, disse Antonio Roque Citadini. Segundo reportagem publicada, em 11 de junho, no portal de notícias do Estadao.

No distante ano de 2002, quando Geraldo Alckmin tentaria (e conseguiria) a sua primeira reeleição ao governo do estado de São Paulo, ele disse o seguinte sobre a gestão Covas (falecido no ano anterior): “Fui co-piloto durante seis anos de um grande comandante, e tive aulas práticas de respeito ao dinheiro público.”

Fernando Henrique Cardoso, um dos principais líderes do PSDB, quebrou o país em 1998. No final daquele ano, o Fundo Monetário Internacional aprovou um empréstimo emergencial de 41 bilhões de dólares para o Brasil. Se não acredita, uma breve busca na internet irá comprovar o que acabo de escrever.

A República estava falida. Graças ao modo tucano de cuidar do nosso dinheiro. É importante fazer essa lembrança constrangedora do período presidencial do PSDB. Afinal, a imprensa, ao menos uma parte dela, considera que aquilo sim é que foi um governo “responsável”.

Hoje, essa mesma parcela da mídia tentará te convencer que o atual governo tucano em São Paulo (e os anteriores) respeita o dinheiro público mais do que qualquer outro partido que você consiga lembrar ou imaginar. Não há alternativa. Dirão nas entrelinhas. Será uma boa aula prática de manipulação midiática.

GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN BATE NAS CRIANÇAS

Você acha normal propaganda feita pra criança? Sobretudo em casos de alimentos e bebidas pobres em nutrientes e com alto teor de sódio e açúcar? Se você respondeu que sim, que acha normal, talvez o seu candidato seja mesmo o Sr. Geraldo Alckmin.

Em janeiro do ano passado, o nosso governadorzinho vetou o Projeto de Lei Nº 193/2008. O projeto, que tratava, obviamente, apenas do âmbito estadual, restringia a publicidade de alimentos e bebidas do tipo dirigida ao público infantil.

Importante ressaltar: a lei, que o nosso governadorzinho vetou, restringia apenas a publicidade de alimentos tidos como nocivos à saúde da criançada. Não falava de toda e qualquer publicidade voltada a esse público. Mesmo assim, essa lei não pareceu suficientemente razoável pra tocar o coraçãozinho do Geraldo.

Diversos países proíbem ou restringem fortemente todo tipo de publicidade dirigida às crianças. E não apenas propaganda de alimentos prejudiciais ao corpinho da criançada. Sobretudo os chamados “desenvolvidos” (como, por exemplo, Suécia, Holanda, Dinamarca, Alemanha e Canadá).

Pra quem tiver interesse e quiser se aprofundar no tema, recomendo o documentário “Criança, a alma do negócio”. Há muitas passagens interessantes no filme. Citarei apenas duas.

A primeira é quando uma psicóloga pede que um grupo de crianças identifique animais em fotografias. Elas erram tudo. Depois, pede-se que o mesmo grupo identifique o logotipo de marcas famosas (como Vivo e Motorola). Elas acertam tudo.

É claro que temos a magia da edição (o que torna a cena ainda mais angustiante para o espectador). Mesmo assim, é desagradável ver a criançada não conseguindo identificar uma capivara, mas identificando (prontamente) o logo de uma empresa de telecomunicações.

A segunda: pede-se que crianças identifiquem frutas e verduras. Elas têm grandes dificuldades em fazer isso. Todavia, quando são apresentados produtos industrializados (como salgadinhos), a história é outra. É tudo muito familiar.

Se você desconhece os riscos potenciais, por exemplo, de uma ingestão de sódio acima do recomendado, sugiro que faça uma busca pela internet unindo as palavras “sódio” + “riscos”. Depois, outra sugestão, escreva para os seus amigos pedindo pra não votar em um determinado candidato que eu não vou repetir o nome, mas que só faz molecagem.

GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN BATE NA ÁGUA

O grande Bruce Lee usou, em diversos momentos, a água como representação de algumas ideias. “É como a água fluente, que ao estagnar-se, torna-se podre; não pare”, teria dito. Ao contrário do que possa parecer, ele não falava, na frase anterior, do volume morto do Sistema Cantareira, mas da vida.

Lee também usou, em muitas oportunidades, a imagem da água pra ensinar a essência da sua arte marcial. Para ele, o bom lutador deveria ter uma grande capacidade de adaptação. Ser flexível como a água. “A água pode fluir ou destruir. Seja água, meu amigo”, proferiu.

Disse a lenda, no entanto, que nasceria uma criatura violenta chamada Geraldo Alckmin. E que esse indivíduo conseguiria superar a técnica e destruir a filosofia de Bruce Lee. Esse homem, no entanto, portador de uma reduzida capacidade intelectual, não entendeu o simbolismo das palavras do mestre e passou a atacar a água em si.

Esse homem, essa criatura nefasta da horrenda profecia, surrou a água de uma forma tão violenta que ela perdeu os principais elementos que a constituíam e virou outra coisa. Uma coisa arrepiante. Somente os mais corajosos ousam dizer o seu nome em público: volume morto.

Se você é abastecido pelo Sistema Cantareira, talvez tenha sentido que a água que você consome (ou consumia), que deveria ser inodora, incolor e insípida (que aprendemos na escola serem as principais propriedades da água), sofreu uma grande transformação por causa da violência cometida pelo Sr. Geraldo Alckmin.

Não é por acaso que, desde cedo, aprendemos que a água pura não deve ter cheiro ou odor (inodora), não deve ter cor (incolor) e não deve ter gosto (insípida). É uma espécie de guia de sobrevivência. Se a água que você for beber fugir dessas características, é sinal de que ela, provavelmente, não é indicada ao consumo.

Desde maio desse ano, pessoas abastecidas pelo Sistema Cantareira estão consumindo água do chamado “volume morto”. Esse sistema atende algumas regiões da cidade de São Paulo (norte e centro; e parte das zonas leste e oeste). Além de diversas cidades da região metropolitana da capital paulista.

A população atendida por esse sistema é de cerca de 8,1 milhões de pessoas. Os dados são da própria Sabesp (empresa responsável, no estado de São Paulo, pela captação, tratamento e distribuição de água; além da coleta e tratamento do esgoto). Talvez o mais correto fosse classificá-la como IRRESPONSÁVEL por tudo isso aí que eu escrevi.

O volume morto, pra quem nunca foi apresentado, é a parte da água que fica abaixo do nível de captação das represas. Geralmente, não é usado. Tanto que para que pudesse ser utilizado o governo do estado fez uma gambiarra para poder captar o pouco de água que ainda resta nessa represa. E daí? Você pergunta. Continue lendo, por favor.

O problema é que diversas reportagens publicadas desde então, apontam para os riscos da utilização desse negócio chamado “volume morto”. Seja para a saúde humana ou para a saúde e sobrevivência do próprio Sistema Cantareira. Afinal, a água do volume morto fica na parte mais funda das represas (acumulando mais sujeira do que o normal e, eventualmente, até metais pesados).

A seguir, disponibilizo o link de algumas dessas reportagens:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/04/25/tratamento-inadequado-do-volume-morto-traz-riscos-entenda.htm

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Todos-alertam-para-os-riscos-de-uso-do-volume-morto-so-a-Sabesp-nao-ve-problema/4/30875

http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/05/especialista-alerta-para-riscos-uso-volume-morto-da-cantareira/

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1423955-uso-do-volume-morto-pode-acabar-com-o-cantareira-diz-consorcio.shtml

Como a água do volume morto não é lá muito indicada ao consumo humano, mesmo que você tenha um filtro adequado em casa, é bem capaz que você tenha sentido um gosto estranho ao beber água nos últimos meses ou semanas. Eu senti. Além disso, senti outra coisa constrangedora: dor de barriga. Isso quando ainda bebia a água filtrada direto da torneira. Agora, sempre que posso, compro água engarrafada. Nem todo mundo pode.

O uso dessa água não é potencialmente ruim apenas para a saúde humana, mas para a própria saúde do Sistema Cantareira. Muitos especialistas já afirmaram: o uso do volume morto é um grande risco para o meio ambiente da área. E pode, no pior dos cenários, provocar o colapso desse sistema hídrico.

Não é exagero. O governador Geraldo Alckmin imita os soviéticos. Um dos grandes desastres ambientais do século XX foi o aniquilamento, ainda que parcial, do Mar de Aral. Os seus recursos hídricos foram devastados, assim como a fauna do lugar, por causa de um uso irresponsável daquela fonte de água.

Em agosto de 2013, a BBC Brasil publicou uma reportagem fotográfica sobre o “mar que virou deserto”. O Mar de Aral, na verdade, é, ou melhor, era um baita lago na Ásia. O ensaio fotográfico, da britânica Catriona Gray, mostra do que homem é capaz se fizer bastante merda.  

Como já foi noticiado, desde 2004, o governo paulista sabia que o Sistema Cantareira não seria mais suficiente para abastecer a região metropolitana de São Paulo. Repito: faz uma década que os tucanos (que já governavam o estado nessa época) sabiam que esse sistema não seria capaz de dar conta do recado. O que exigiria novos investimentos para a captação de água em outras fontes. Além, é claro, de um uso mais racional desse precioso recurso.

Mas nada foi feito. E por uma razão muito simples: investimento significa lucro menor pra quem controla (em parte) a Sabesp. Sim. A empresa pública que cuida da água em São Paulo tem um capital misto. Parte privado e parte público (sendo que o acionista majoritário, por ora, ainda é o governo paulista; ou seja: você). Até aí você pensa, foda-se. Fazendo o seu trabalho direito, ok.

Eu não vou entrar nesse debate agora (embora, pra mim, água e outros recursos naturais não devam ser tratados como negócio). Todavia, o problema fundamental é que a Sabesp não tem feito o seu trabalho a contento. Farei apenas mais duas colocações pra encerrar o meu posicionamento sobre o tema:

  1. Quanto maior o dividendo (dinheiro) distribuído ao acionista, menor o volume de recursos financeiros que a empresa tem para investir no aprimoramento e ampliação do serviço prestado. Serviço pelo qual, nunca é demais lembrar, você paga. Atrasa a conta pra ver se a água da sua casa não é cortada.
  2. Embora o próprio estatuto da empresa determine que os acionistas podem receber (no máximo) 25% do lucro líquido anual da Sabesp, no ano de 2003, por exemplo, o governador Geraldo Alckmin (que tinha acabado de ser eleito) depositou na conta dos acionistas 60,5% do lucro líquido da companhia. Desde então (os dados vão de 2003 até o ano passado), o dinheiro dado aos acionistas sempre esteve maior que os 25% determinados pela própria Sabesp. Para mais informações, clique aqui.

Geraldinho Alckmin é o mais brigão da escola. Na hora do recreio, bate e rouba o lanche da pobre água. Na hora da saída, bate de novo na água e ainda rouba a grana do ônibus. Bate na água e em quem tentar defendê-la. Repito: ele bate na água. E sabe na bunda de quem ela irá bater?

GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN BATE NOS POBRES

Quase ninguém, acredito, irá discordar ou fará grandes ressalvas ao que escreverei a seguir: tucano não governa pensando nos pobres ou miseráveis. Muito pelo contrário: considera essa gente, de uma forma geral, um estorvo ao seu projeto (seja ele qual for). Quem quiser discordar, aliás, fique à vontade.

A política de assistência social paulista é, sobre diversos aspectos, lamentável. Eu sei muito bem disso. Exerço, desde o ano de 2009, o cargo de Executivo Público na Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (SEDS). Na sequência, irei explicar, em quatro tópicos, alguns dos porquês do meu desalento.

1. A Ilegalidade Nossa de Cada Dia

O Artigo 235 da Constituição do Estado de São Paulo proíbe, explicitamente, a distribuição de recursos públicos na área de assistência social “por ocupantes de cargos eletivos.” Essa, no entanto, é uma prática corriqueira na SEDS. E ela acontece por meio de convênios com organizações sociais que recebem emendas de parlamentares (gente que ocupa um cargo eletivo). É o bom e velho e sempre rejuvenescido TOMA LÁ DA CÁ. Isso explica, em parte, a força de tucanos e aliados no interior do estado. Afinal, embora o dinheiro seja público, ele é gerido por entidades “amigas” dos deputados. E o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado, curiosamente, não têm qualquer interesse em acabar com essa flagrante ilegalidade.

2. Pobre Trabalhador

Artigo da bacharel e mestranda em Serviço Social, Priscila de Souza, fala, entre outras coisas, do “sucateamento” das carreiras dos trabalhadores da SEDS. Ela própria é servidora da mesma Secretaria, na qual exerce a função de Especialista em Desenvolvimento Social. No texto, a Especialista revela que, de acordo com a Associação dos Trabalhadores da Secretaria, de nove estados que têm carreiras similares, o menor salário é pago pelo governo paulista. Os dados são de agosto de 2012. No mesmo artigo, a servidora fala da grande rotatividade de trabalhadores. Sendo um dos motivos “os baixos salários”. Essa rotatividade, ainda que por razões distintas, também se estende aos mais altos cargos da Secretaria. “Com tanta fragmentação e tantos interesses em jogo, planejar a política pública fica em último plano, somente no período de 3 anos e 9 meses foram 6 Secretários e na Coordenadoria de Gestão Estratégica 8 coordenadores”, escreve Priscila de Souza. O artigo foi publicado, em abril desse ano, na IX edição do “Esquina” (Boletim Informativo da Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do Estado de São Paulo).

3. Primeiro-Damismo

No mesmo artigo, a servidora Priscila de Souza também dissemina críticas do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Seguridade e Assistência Social (NEPSAS):

A pesquisa do NEPSAS, também revela que, o Governo do Estado de São Paulo mantém e estimula a superposição de órgãos na gestão da assistência social e esta afirmação é comprovada pelo decreto nº 59.103, de 18 de abril de 2013, que ampliou competências do FSS [Fundo Social de Solidariedade] atribuindo-lhe responsabilidades que são pertinentes ao SUAS [Sistema Único de Assistência Social]. O FSS estadual transfere via primeira dama, recursos financeiros do orçamento público para as primeiras damas dos municípios, em modo similar às emendas de paramentares, a prefeituras e a entidades sociais. Tudo isso ocorre de forma paralela e pouco visível ao controle social.

Resumindo: uma parte expressiva do dinheiro da assistência, que deveria passar pelo Fundo Estadual de Assistência Social (vinculado ao Conselho Estadual de Assistência, a quem compete acompanhar a gestão dos recursos da área), é destinada a uma espécie de caixa paralelo. Sobre o qual a sociedade terá ainda menos controle do que o habitual. Esse modus operandi já tem até um nome jocoso entre os conhecedores do assunto: primeiro-damismo. Que nada mais é do que a institucionalização do assistencialismo na figura da esposa do governante. É simples: você esvazia a política pública e infla o assistencialismo mais grotesco e arcaico. Os benefícios eleitorais pra quem comanda o Estado de São Paulo, depois de quase duas décadas no poder, são evidentes.

4. O Insulto Final

Se você, caro cidadão, precisar, por exemplo, conhecer programas da Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS), não procure essa informação no lugar, em tese, mais indicado: a página eletrônica da própria SEDS. Ao tentar acessar o site, você será informado do seguinte:

Em atendimento à legislação eleitoral (Lei nº 9.504/1997), este site ficará indisponível de 5 de julho de 2014 até o final da eleição estadual de São Paulo.

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http://www.desenvolvimentosocial.sp.gov.br/offline.html

O aviso não informa, no entanto, que Artigo ou trecho da lei o órgão estaria infringindo ao manter o site no ar. Provavelmente porque os “iluminados” que pensaram nisso não se deram ao trabalho de ler a legislação eleitoral. Essa lei, em momento algum, determina que no período das eleições o Estado deva “sair do ar” e parar de fornecer informações ou de oferecer serviços já previstos. O que a Lei 9.504/1997 veda é a propaganda de cunho eleitoral. Informações de interesse público devem ou deveriam, obviamente, continuar à disposição do cidadão. Se você, caríssimo cidadão, precisar saber onde fica a sede da Secretaria ou quiser algum contato telefônico pra se informar do que quer que seja, lamento, mas não irá conseguir isso no site oficial desse órgão. O Estado, independente de qualquer eleição, deve continuar funcionando. Será que o governo do estado não entendeu a lei? Ou será que o governo entende que todo o conteúdo até então disponível no site da Secretaria de Desenvolvimento Social era mera propaganda?

Eu poderia discorrer muito mais sobre a triste gestão pública, da área social, no estado de São Paulo. Mas não ganho nada pra escrever nesse blog. E ganho modestamente pelo meu trabalho na Secretaria. Portanto: fica difícil se estender no tema (o que exige um mínimo de pesquisa e muita atenção ao lidar com certas informações).

Para os tucanos, pobre, quando muito, deve ser alvo de dó ou caridade. Ou de porrete, no caso do Pinheirinho e tantos outros. E não de qualquer política pública emancipatória ou coisa que o valha. Na verdade, com raríssimas exceções, política, para o PSDB, jamais virá acompanhada da palavra “pública”.

GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN BATE NA POLÍCIA

Essa mensagem é dirigida, sobretudo, aos policiais honestos e que realmente ingressaram nessa profissão com o intuito de defender e não arrebentar o cidadão. Os policiais que não se encaixam nesse perfil, por favor, podem parar de ler. Sério. Esse texto não é pra vocês.

Caríssimo policial, sabe o otário? Aquela figura que todo mundo aponta quando passa? Que é motivo de chacota e tal? O otário pode ser você. Se você votar em Geraldo Alckmin nas eleições desse ano, você será o otário mor. Eu explico.

Sabe o que esse governadorzinho oferece de indenização para familiares de policiais mortos? Nada. Isso mesmo. Nada. É o seguinte: você arrisca a sua vida e se você morrer, problema seu. O governadorzinho não dá à mínima. Não liga pra você e muito menos pra sua família que ficará desamparada.

Reportagem do jornal Folha de S. Paulo publicada em maio desse ano demonstra isso claramente. A matéria, assinada por Rogério Pagnan e Marina Gama Cubas, tem o seguinte título: “SP não paga indenização a família de PM assassinado”.

A reportagem começa contando a história da soldada* Marta Umbelina da Silva de Moraes. Ela foi assassinada na frente da filha de 11 anos, em 2012, com mais de dez tiros. Na ocasião, ela estava de folga. Era um momento, pra quem não se lembra, especialmente conflituoso entre as forças de segurança e o PCC.

Naquele ano, a gestão do mesmo governador de hoje, o minúsculo Geraldo Alckmin, havia se comprometido a indenizar famílias de policiais mortos em situações do tipo. Afinal, criminosos podem e eventualmente aproveitam pra agir em momentos nos quais o policial está de folga.

A família de Marta Umbelina da Silva de Moraes jamais recebeu qualquer tipo de indenização. Assim como a maioria dos 80 policiais assassinados no mesmo ano. Ainda de acordo com a matéria da Folha, em apenas 8 dos 80 casos registrados houve autorização para o pagamento de indenização às famílias.

A filha de Marta, que em 2012 tinha 11 anos, ainda não tem idade pra votar nas eleições desse ano. Seja solidário ao sofrimento da menina e não vote nessa coisa nefasta que hoje temos como governador. Mas se você, caro policial, não morrer de morte matada, talvez morra de fome.

Em nota datada de 3 de Julho, a Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado de São Paulo, critica o aumento salarial concedido nesse ano pelo governo tucano (que ficou muito abaixo do reivindicado pelos representantes da categoria). “A Associação dos Cabos e Soldados da PM de SP lamenta esse reajuste insignificante e as respostas serão dadas nas urnas, no dia 5 de outubro”, diz a nota publicada no site da entidade.

Eu, sinceramente, espero que sim. Que cabos e soldados, que, afinal, são a maioria da tropa, se lembrem da forma como são tratados pelo atual governo na hora de votar. E não apenas no dia das eleições. Mas que também se lembrem disso todo o dia em que levantarem da cama pra ir trabalhar.

No estado de São Paulo, a situação de outras carreiras na área de segurança também não é muito mais, digamos, promissora. De acordo com a 7ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o governo paulista é o que paga os piores salários aos Delegados da Polícia Civil em todo o país. Repito: o pior salário com o qual um delegado pode sonhar, em todo o Brasil, está em São Paulo.

Com exceção dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Tocantins, com os quais não é possível fazer essa comparação, não há estado no Brasil que remunere pior os seus delegados (analisando-se a “Remuneração Inicial Bruta”, que é o que a pessoa ganha com o acréscimo de adicionais, gratificações ou outras vantagens pecuniárias).

AQUI É SÃO PAULO. A LOCOMOTIVA DO PAÍS… Fica quieto, Geraldinho! Isso é conversa de adulto. Sabe o Acre? Aquele estado que todo mundo brinca se existe ou não. Ele existe. E nessa coisa chamada “realidade”, o governo do Acre paga melhor aos seus delegados do que o FERRORAMA do Geraldinho.

Os dados sobre a remuneração das polícias do país estão disponíveis no último Anuário Brasileiro de Segurança Pública (publicado no ano passado). Pra quem tiver interesse, acesse o link abaixo (as informações citadas podem ser encontradas na página 74; Tabela 35).

http://www.forumseguranca.org.br/storage/download//anuario_2013-corrigido.pdf

Pra quem vive de salário, votar em tucano é sempre uma opção arriscada. Por isso, faço um apelo aos meus colegas policiais e demais trabalhadores paulistas (sejam servidores públicos ou não): não seja otário, não vote em Geraldo Alckmin. O governadorzinho e sua turminha, convenhamos, já teve mais de uma chance pra distribuir felicidade. Pense em outros nomes. Satanás, por exemplo.

*A norma culta, que eu saiba, ainda não aceita o uso do termo “soldada”. Sendo mais correto, portanto, do ponto de vista gramatical, usar o artigo definido “a” ou “o” antecedendo a palavra “soldado”. Mas eu quis usar “soldada” mesmo assim. Achei mais adequado e respeitoso com a falecida soldada Marta.

CHAME DE IDEALISMO

É possível prever pra onde caminha a humanidade? E se isso for possível, teríamos como alterar o seu rumo? Caso a maioria de nós entendesse, é claro, que a direção tomada é desastrosa para o futuro da espécie. E levando em conta, obviamente, que a maior parte dos transitórios habitantes desse planeta se importe com isso.

Cito apenas dois assuntos do nosso tempo potencialmente nocivos para o futuro dessa coisa chamada humanidade: aquecimento global e aumento da desigualdade social. Tanto o primeiro quanto o segundo, qualquer pessoa minimamente honesta irá concordar, poderão ter consequências nefastas para a vida humana na Terra.

No caso do primeiro: é razoavelmente aceita a ideia de que já não seria possível impedir o aumento do aquecimento global, mas apenas minimizar os seus danos. Para mais informações, sugiro o site do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (que pesquisa mudanças do clima, como o seu nome indica, em escala global).

http://www.ipcc.ch/

A segunda questão ficou ainda mais evidente com o lançamento do livro “O Capital no Século XXI”. Na obra, o economista francês Thomas Piketty demonstra, de forma muito bem embasada, que o mundo caminha, com bastante vigor, na direção do aumento da desigualdade social.

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/as-revelacoes-de-o-capital-no-seculo-xxi/

E a menos que façamos alguma coisa esses serão os resultados mais prováveis nas próximas décadas: um planeta mais quentinho e mais pobrinho pra maioria. Mas será possível alterar o rumo de processos tão complexos? Ou conseguir ter alguma incidência em aspectos tão colossais da nossa época?

Karl Marx achava que sim. Embora, inteligente como era, alertasse que não deveríamos ignorar o contexto no qual estamos inseridos. No texto “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, o alemão, que não teve nada a ver com a goleada sobre o Brasil por 7 a 1, escreveu:

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

No campo da ficção, Isaac Asimov também abordou essa temática. Na trilogia “A Fundação”, Asimov fala de um fictício Império Galáctico. A história se passa milhares de anos à frente do nosso tempo. Tão distante dos dias de hoje que os nossos descendentes nem mesmo se recordam que a origem da civilização humana foi nesse pequeno planeta que chamamos de Terra.

Na história, um renomado cientista, Dr. Hari Seldon, acredita que o Império cairá. E que a ruína, mesmo que se façam todos os esforços possíveis, é inevitável. Caberia ao ser humano, portanto, apenas minimizar, ao máximo, as consequências do período de anarquia que virá.

O projeto desse cientista é o de elaborar uma Enciclopédia Galáctica (que irá reunir todo o conhecimento acumulado até aquele momento pelo homem). Algo como, talvez, a internet? A trilogia foi lançada, originalmente, entre os anos de 1942 e 1953. Assim, quando tiver início o período de anarquia (Asimov usa esse termo), a base do conhecimento humano estará preservada para gerações futuras.

Asimov, pra escrever essa trilogia, se inspirou na história do Império Romano. Mais especificamente no livro “A História do Declínio e Queda do Império Romano”, do historiador inglês Edward Gibbon. Ao longo dessa trilogia, no entanto, descobriremos que há um objetivo oculto por trás do projeto original de Hari Seldon (sendo, no entanto, complementar ao objetivo confesso).

Em “A Fundação”, Seldon é o criador da “psico-história”. Trata-se, como Asimov a descreve, de um “ramo da matemática que trata das reações dos conglomerados humanos a estímulos sociais e econômicos fixos”. Ou seja: é uma ciência que tenta entender como irá se comportar grandes montantes populacionais a partir de uma série de variáveis (coisa gigantesca: de bilhões, trilhões, quatrilhões de indivíduos).

Na contracapa da nova edição do livro, lançado pela Editora Aleph, o economista Paul Krugman (Prêmio Nobel de 2008) fala do impacto que a obra teve em sua vida:

Há uma série muito antiga de Isaac Asimov – os romances da Fundação – na qual os cientistas sociais entendem a verdadeira dinâmica da civilização e a salvam. Isso é o que eu queria ser. E isso não existe, mas a economia é o mais próximo que se pode chegar. Então, como eu era um adolescente, embarquei nessa.

http://www.editoraaleph.com.br/site/ficcao/trilogia-da-fundac-o-box.html

Eu já não sou adolescente há algum tempo, mas também embarquei, de outra maneira, nessa doideira. O Dr. Hari Seldon, é importante ressaltar, jamais verá o resultado da sua ambiciosa empreitada. Há um belo diálogo sobre isso (que eu não vou dizer em que situação ocorre pra não estragar a surpresa de quem um dia vier a ler “A Fundação”):

-Dos quatrilhões que vivem hoje, ninguém, entre todas as estrelas da Galáxia, estará vivo daqui a um século. Por que, então, deveríamos nos preocupar com acontecimentos de daqui a três séculos?

-Eu não estarei vivo daqui a meia década – disse Seldon – e, não obstante, isso é de uma preocupação fundamental para mim. Chame de idealismo. Chame de uma identificação minha com a da generalização mística à qual nos referimos pelo termo “humanidade”.

Volto aos dois questionamentos do parágrafo inicial. É possível prever pra onde caminha a humanidade? E se isso for possível, teríamos como alterar o seu rumo? Acho que sim. Não custa tentar. Quer dizer: custa sim. Tenta se manifestar no Rio, em São Paulo ou em qualquer outro lugar do país pra ver o que acontece.

No momento, o poder das partes em luta é bastante desproporcional. E há, obviamente, grande interesse, de determinados setores da sociedade, em não apenas manter tudo como está, mas de ampliar a sua hegemonia e radicalizar o modelo vigente. Repito (e insisto): no momento.

Chame isso de idealismo, ingenuidade ou dê qualquer outro nome. Pouco importa. Mas, pra mim, assim como para o personagem de Asimov, essa é “uma preocupação fundamental”.