Uncategorized

O QUE É ISSO QUE SOBREVOOU SÃO PAULO EM 19 DE JULHO?

Objeto3

Relato: Leonardo Gomes Nogueira e Paulo Arias

Fotos: Paulo Arias

Somente após descartar muitas possibilidades, é que decidimos publicar o relato que segue:

Na madrugada de 19 de julho, por volta das duas da manhã, avistei uma estranha luz no céu da cidade de São Paulo. Em seguida, chamei um amigo (que começou a fotografar o quer que fosse que estivéssemos vendo). Estávamos na casa de outro amigo, no décimo andar de um prédio localizado na Alameda Nothmann (entre as ruas Guaianases e Conselheiro Nébias). Região central de São Paulo.

O apartamento, de fundo, era voltado para o marco zero da cidade (da qual tínhamos uma enorme vista panorâmica que ia do prédio Altino Arantes – antiga sede do extinto Banespa – até, mais ou menos, o Conjunto Nacional da Avenida Paulista, que conseguíamos identificar graças ao enorme relógio em seu topo).

Objeto1

O objeto ficou parado por alguns minutos e começou a se movimentar para a região da Luz-Bom Retiro (em direção à zona norte de São Paulo). Infelizmente, um prédio localizado a nossa esquerda impediu que continuássemos registrando o fenômeno.

Objeto2

Não era um avião. Logo descartamos isso. Pois ele estava baixo demais e ficou parado em alguns instantes. Um avião, como se sabe, não para no ar. Um balão tampouco. Também nunca vimos um helicóptero que tivesse uma luz tão forte. O objeto todo parecia ser luz e apenas luz. A luz tomava a “coisa” por completo.

Objeto3

Encontrei, no YouTube, duas filmagens que teriam sido feitas no mesmo dia (19 de julho). O primeiro vídeo seria de Santo André (cidade da região metropolitana de São Paulo). O segundo, de acordo com o seu autor, teria sido filmado no Cambuci. Bairro localizado entre as regiões central e norte da capital paulista (é importante lembrar: avistamos e fotografamos o fenômeno no centro e, em seguida, ele pareceu se deslocar para o norte da cidade).

Vimos um OVNI? Sem dúvida. Se considerarmos que se trata de um acrônimo para Objeto Voador Não Identificado. Pois não sabemos o que vimos. As imagens originais, aliás, estarão à disposição de quem tiver interesse em analisá-las (basta pedir pelo seguinte e-mail: leogomesnog@gmail.com). As ampliações, até o momento, só aumentaram o mistério.

O NOVO “MAD MAX” NOS ENSINA ALGO SOBRE O CAPITALISMO

A série “Mad Max” é, quase toda, atravessada por uma ideia básica: é necessário migrar em busca do paraíso na Terra. Onde seria possível ter uma vida digna e feliz bem distante do caos. Usando uma ideia bíblica: um lugar onde jorraria leite e mel em abundância.

O que eu mais gostei no novo filme da série é que, em algum momento, o “herói”, perturbado pelas lembranças de fracassadas tentativas anteriores de encontrar o éden terreno, diz que não há pote de ouro no final do arco íris e que é preciso ficar e lutar. Ele sabe que não há nada além do horizonte, que não há terra prometida alguma porque já está perambulando pelo mundo faz muito tempo.

O anarquista Erich Unger propunha que os povos migrassem: abandonando os países capitalistas para viver em locais que o capitalismo ainda não tivesse alcançado. Ideia mais do que equivocada, é claro. Não há como se esconder ou fugir do capitalismo. Pois é parte da sua essência se expandir para todos os cantos do planeta e no futuro, talvez, pra fora dele.

É possível entender (razoavelmente) e até gostar do novo filme da série sem ter visto os anteriores. Mas conhecer a trilogia dos anos 80 ajudaria a compreender a motivação, aparentemente, suicida do protagonista Max de não mais fugir.

Há um conto de Adolfo Bioy Casares, chamado “História Prodigiosa”, no qual um mortal duela contra o próprio satã numa luta de espadas. Mesmo sabendo da quase impossibilidade de vitória, ele luta brava e incansavelmente contra o demônio. O narrador, de outra época, na qual se usava pena e espada, lembra:

Cada um recolha a moral da história que quiser. Minha pena recordará tão só a nítida retidão de alma com que meu amigo empreendeu a guerra contra o céu e o inferno, e sua impávida coragem, que não se amparava na esperança. De outros valentes não poderíamos afirmar tanto.

Voltemos, por um breve momento, ao bom e divertido “Mad Max”. Como escreve Casares, que agora eu coloco fora de lugar: Cada um recolha a moral da história que quiser.

SOBRE UM OUTRO 15 DE MARÇO: QUANDO, HÁ 22 ANOS, OS FUNCIONÁRIOS DA TV MANCHETE MANDARAM UM RECADO

Não me importo com o que vai acontecer no próximo dia 15 de março. Alguns pedirão o impedimento (ou impeachment) de Dilma Rousseff. Outros a defenderão. Vou ignorar ambos. Assim como pretendo ignorar qualquer convite que vier a receber para manifestações do tipo (seja a favor ou contra a presidenta).

Contudo, é importante ressaltar, sempre critiquei governantes que poupam os ricos e impõem ainda mais sacrifícios aos pobres. E Dilma tem feito exatamente isso. Portanto: ela que ligue para banqueiros, ruralistas e outros saqueadores em busca de apoio.

Quando foi do seu interesse, Dilma reprimiu, por meio da Força Nacional de Segurança Pública, em associação com as polícias estaduais, quaisquer manifestações que não fossem do seu agrado. A presidenta também não fica constrangida com a ocupação militar da Maré.

Os debates na internet (e fora dela) sugerem uma polarização que não existe. Jornalistas de várias tendências têm contribuído para essa, repito, falsa radicalização: como se projeto da oposição e situação, aos menos dos grupos e partidos hoje mais representativos, fossem tão diferentes assim. Como se esses, aliás, tivessem algum projeto que não o da manutenção e, se possível, ampliação do pedaço de poder conquistado.

Isso não me impede, é claro, de perceber diferenças entre setores da oposição e situação. E de defender medidas com as quais eu vier a concordar (seja da oposição ou situação). Pois meu único dogma é não ter dogma.

Todavia, diante do que está instituído, ou seja, do conjunto das instituições que regem o nosso cotidiano (e não falo apenas do Estado, é claro), só posso apostar no instituinte. Ou seja: na crítica permanente ao que está colocado. Resultando, quem sabe, na criação de um novo instituído.

Com isso defendo a destruição de tudo o que está aí? Não. Defendo sim o questionamento de tudo o que está aí. Sejamos sinceros: você confia, minimamente, na polícia? Ou na justiça? Você acha o lucro dos bancos razoável ou repulsivo? Isso tudo e muito mais é o que hoje está estabelecido. É o instituído.

Gostando ou não dessa situação saiba o seguinte: ela não é imutável. Pois é fruto de lutas e acordos da sociedade. Alguns lutarão pela sua manutenção. Outros pela sua mudança. Hoje, aposto no instituinte para que, amanhã, quem sabe, tenhamos outro instituído. Pois, do interior das instituições (das profundezas do que está instituído), e essa é uma das poucas certezas que tenho na vida, não virá mudança alguma.

O que as pessoas, em geral, não percebem (ou sequer ousam pensar), é que todos nós controlamos pequenas frações dessa coisa chamada poder. A greve dos garis do Rio de Janeiro, no começo de 2014, é um bom exemplo disso.

Os garis tinham contra si tudo o que estava instituído (poder executivo – no caso, a prefeitura do Rio – judiciário etc). Até mesmo a instituição que dizia representá-los (o sindicato da categoria) estava contra. Mas o processo instituinte dos garis, visando transformar a sua condição e, portanto, o que estava instituído, foi irresistível. Seduzindo e ganhando o apoio dessa coisa chamada povo.

A importância do ofício, que o jornalista Boris Casoy classificou como o “mais baixo da escala do trabalho”, ficou evidente quando o lixo passou a se acumular nas ruas da capital fluminense. Bastou organização (o que, convenhamos, é das coisas mais difíceis), para que os garis tivessem considerável sucesso em suas reivindicações.

Em 15 de março de 1993, trabalhadores (em greve) da extinta TV Manchete perceberam que tinham em mãos um poderoso meio para difundir o seu próprio protesto. No livro “Rede Manchete: Aconteceu, virou história”, o radialista Elmo Francfort conta o episódio que começa diante da antiga sede da TV na Rua do Russel, bairro da Glória, zona sul da cidade do Rio de Janeiro:

Funcionários da Manchete participaram, na frente do prédio do Russel, de assembléia do Sindicato dos Jornalistas e Radialistas. Quando a decisão estava sendo votada, 30 funcionários invadiram o hall de entrada da Manchete, subiram pelas escadas até o 4º andar, arrombaram a porta do setor de exibição, arrancaram os cabos do patch, na engenharia, e colocaram no ar o sinal do gerador de caracteres. Um dos funcionários sentou-se ao Chyron e digitou uma mensagem sobre o logotipo da Manchete que foi ao ar para toda a rede: Estamos fora do ar, por motivos falta de pagamento dos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e parte do décimo terceiro de 1992. Cinco minutos depois, a geração de sinal para toda a rede passou a ser feita por São Paulo. A Manchete Rio tomou providências e a emissora saiu do ar às 15h15 e só retornou às 19h40. A Rede Globo aproveitou a invasão e entrou com uma câmera escondida para gravar tudo que aconteceu e na manhã seguinte, diversos jornais estampavam a notícia na página principal.

Dilma, assim como o irresponsável governador de São Paulo, Geraldo “não falta água” Alckmin, estão preocupados apenas em manter a sua fração do poder. Fração, obviamente, muito maior que a nossa. E ambos só têm aceitado dividir lascas desse pedacinho do poder com a elite de sempre.

Cabe a nós, quem estiver afim, é claro, construir novas formas de organização para uma futura sociedade na qual Dilma, Alckmin e outros estejam no mesmo patamar dos demais. Que todo mundo seja tão comum e fundamental quanto o ar que respiramos. Na minha utopia, respiraríamos um ar mais puro, é claro.

A MORTE E A MORTE DA PUSSY RIOT NADYA TOLOKONNIKOVA

Lembrando frase de Mark Twain, as notícias sobre a morte da russa Nadya Tolokonnikova foram exageradas. Afinal, ela está vivinha da silva. Contudo, reportagem publicada em fevereiro desse ano pelo Outras Palavras, mostra que a integrante da banda punk-feminista Pussy Riot bem sabe dos riscos da sua atividade (aqui).

Esses boatos, quase sempre, não são inocentes. Embora se espalhem graças aos inocentes úteis de sempre. Porém, seriam esses “compartilhadores” ingênuos radicais ou cúmplices de um crime?

Nesse caso específico, a central de boatos, aparentemente, é um site intitulado “Internet Chronicle” (ABARROTADO DE NOTÍCIAS FALSAS). A imprensa brasileira não perdeu a chance e deu mais uma das suas tantas “barrigadas” (jargão usado pelos jornalistas para tratar dos seus próprios erros).

O BOL, do Grupo Folha, republicou a “notícia” na tarde de 4 de março. Ao tentar acessar o link, na manhã do dia seguinte, a “notícia” já havia sido retirada do ar. Mas aí vai uma imagem da barrigada:

Pussy Riot (BOL)

O “Internet Chronicle” (ou, para o BOL, apenas Chronicle), entretanto, ainda mantém a falsa notícia a disposição de quem quiser compartilhá-la (veja aqui):

Pussy Riot (Chronicle)

Esses boatos, como já escrevi, raramente são inocentes. Nesse caso, talvez, a ideia seja “testar” a reação de certa opinião pública ao possível assassinato de Nadya ou mesmo insuflar a oposição ao presidente-czar russo Vladimir Putin (veja bem, faço conjecturas com base nessa notícia falsa).

O mesmo site, anote o nome pra não ser enganado, publicou em fevereiro desse ano que o promotor Gerardo Pollicita, que assumiu um caso de grande repercussão na Argentina após a morte (suspeitíssima) do seu antecessor, teria sido assassinado. FALSO. Novamente: “testar” ou insuflar a opinião pública?

Nas vésperas do segundo turno da eleição brasileira do ano passado, começou a circular o boato de que o doleiro Alberto Youssef teria sido envenado na prisão e estaria entre a vida e a morte. Tudo mentira.

Nesse caso, a intenção dos boateiros era mais clara, independente de qual tenho sido o epicentro do boato: sugerir que petistas, talvez, quem sabe, até mesmo seguindo ordens de Dilma, tivessem envenenado alguém que poderia, quem sabe de novo, trazer dificuldades ao partido da presidenta. Pouca gente, antes de espalhar o boato, se atentou para a burrice que seria uma tentativa de assassinato a pouca horas do segundo turno da eleição presidencial.

Ou mesmo para a dificuldade de se colocar uma conspiração do tipo em prática (Youssef, afinal, é dos presos mais visados e protegidos do país). Ou ainda para o fato de que um caso de envenenamento não seria rapidamente identificado (necessitando de exames posteriores para a sua confirmação; traços do veneno no sangue da vítima etc).

Quem se atentou a esses e outros aspectos da “notícia” e mesmo assim a enviou para os amiguinhos, sai da categoria dos tolos e entra em outra.

PARA MANIFESTANTES ENDIABRADOS: A TEORIA DOS DOIS DEMÔNIOS

A criação da teoria do título é atribuída ao escritor argentino Ernesto Sabato. No ocaso da última ditadura do seu país, que se encerrou em 1983, ele foi nomeado presidente de uma comissão encarregada de investigar os crimes cometidos durante o regime de exceção.

Nesse momento, Sabato formula a tese que igualaria a violência do aparato repressivo estatal com a de organizações que o combateram. Um pouco da sua e dessa história, em artigo do professor de literatura Idelber Avelar, aqui.

Desde então, essa ideia ganhou força entre os defensores mais ardilosos das ditaduras que se instalaram em vários países da América Latina a partir, sobretudo, da segunda metade do século XX.

Essas pessoas, ainda que com muitas ressalvas, passaram a reconhecer que as ditaduras se “excederam” em vários momentos, que houve “alguma” violência etc. Todavia, que isso teria sido necessário para acabar com uma ameaça muito pior. Ou ainda: que a violência teria sido somente uma resposta aos grupos armados de esquerda. Seria, portanto, a luta de um demônio contra o outro.

Não vou me deter sobre ditaduras de outros países da região. Mas no caso Brasil, essa teoria não cola (mesmo que aceitássemos o argumento repulsivo de que certas brutalidades devem ser praticadas para evitar que outras brutalidades aconteçam). Explico:

a) A teoria dos dois demônios pressupõe uma equivalência de forças (satanás versus satanás). O golpe de 1964 encontrou pouquíssima resistência. Foram poucas horas entre o início da ação golpista (quando o general Olímpio Mourão Filho, a frente das suas tropas, marcha de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro) e o seu desfecho com verniz de legalidade (quando o parlamentar golpista Ranieri Mazzili, presidente da câmara dos deputados, assume a presidência interinamente). Tudo transcorreu entre a manhã de 31 de março e a madrugada do dia 2 de abril. O jornalista Mário Magalhães relata, em seu blog, as horas iniciais do golpe.

b) Além disso, a teoria de Sabato sugere que determinada força militar foi obrigada a agir diante de uma ameaça a sua própria existência. No caso do Brasil, isso não procede. Tanto a ação armada na cidade quanto a tentativa de guerrilha no campo (como a do Araguaia) foram, do ponto de vista militar, um fracasso retumbante. Um demônio que não ameace, de fato, o outro não pode ser considerado tão maligno assim.

A teoria dos dois demônios, com alguma frequência, é retomada para justificar a violência policial contra manifestantes (como no caso do primeiro ato contra o aumento da tarifa do transporte, ocorrido no dia 9 de janeiro em São Paulo).

Parcela da imprensa (a de sempre) diz que a PM “precisou agir” para “conter” manifestantes mais exaltados que estariam depredando sei lá o que. Portanto, toda a violência e abusos posteriores se justificariam. Parte da população (a de sempre) aplaude.

Uma vez ouvi em uma rádio da capital paulista uma “repórter” dizendo (mais ou menos): “A polícia jogou uma bomba pra acalmar a situação”. Juro. Sem dúvida, essa é a melhor maneira de “acalmar” qualquer situação.

Feito esse preâmbulo (e ainda com a teoria dos dois demônios na cabeça), gostaria de fazer algumas considerações finais:

1. A violência praticada contra um ser humano e contra uma vidraça não é, de forma alguma, equivalente. Objetos inanimados, eu aprendi na escola, não sangram. Acho importante fazer essa observação.

2. Lutar contra o abuso policial é uma forma de resistência (e não de violência). Se defender não é crime e até a nossa legislação reconhece isso. Há uma ação, quase inócua, é verdade, praticada por alguns manifestantes que é a de bloquear ruas (com lixo e outros objetos) para atrasar o avanço policial. Muitos, suponho, sequer fazem isso pensando em retardar a PM. A tropa de choque utiliza uma formação clássica romana (com um escudo colado ao outro). Você certamente já viu essa disposição dos antigos soldados do Império Romano em filmes. Um bom exemplo é “Spartacus”, de Stanley Kubrick. O filme trata de uma rebelião de escravos liderada por Spartacus. Há uma sequência fenomenal (a da batalha final) que mostra os escravos tentando, com toras em chamas, furar a formação (escudo/escudo) do exército romano. Tática que tornou Roma, durante séculos, imbatível nos campos de batalha. Spartacus sabia que se os seus liderados não conseguissem abrir buracos no compacto exército romano, não haveria chance de vitória. Mas não conto o final. Manter a formação ao estilo romano é fundamental para o sucesso da tática. A tropa de choque de São Paulo sabe disso, é claro. Cada obstáculo na via, no entanto, exige que a formação se desfaça (ainda que por poucos segundos). Isso, naturalmente, pode atrasar o seu avanço e dar uma chance maior de fuga aos manifestantes. Logicamente, uma pessoa em fuga é alguém que não pretende se confrontar com o outro que a persegue. Mas a PM de São Paulo, com frequência, não tem como objetivo somente “dispersar” os manifestantes. Imagens e relatos da última manifestação (e de anteriores) demonstram que, muitas vezes, a ideia da polícia é de encurralar os manifestantes não dando a possibilidade de uma rota de fuga. A jornalista Eliane Brum escreveu um excelente relato sobre a repressão brutal de 9 de janeiro (aqui). Não vou me surpreender se alguém morrer pisoteado nas próximas manifestações. A polícia do governador Geraldo Alckmin tem trabalhado pra isso.

3. A total desproporcionalidade da ação policial tem sido rotina. Um vídeo que mostra o início da repressão ao ato do dia 9 de janeiro é bastante ilustrativo. Filmado do alto de um prédio, ele demonstra que a PM joga uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo em manifestantes que não representam qualquer ameaça (nem ao sagrado patrimônio e muitos menos aos próprios policiais). Alguém poderia argumentar que uma parte (bem menor, é importante ressaltar) dos manifestantes, estaria violentando objetos inanimados e que a PM precisava contê-los. Bom, bastava cercar esse grupo menor (a vanguarda da manifestação) e poupar o restante dos manifestantes (bem mais ao fundo). Não seria essa a melhor forma de contê-los? Relato da minha ex-colega de faculdade, Vanessa Barbara, que estava na “rabeira” da manifestação, demonstra que a ideia dos policiais, além de amontoar (perigosamente) as pessoas, era também, se possível, atingi-las de formas variadas (ainda que elas não esboçassem qualquer coisa que soasse como a mais remota ameaça aos policiais). “Pedi calma. Ainda assim eles atiraram bombas de gás contra nós. Enquanto fugíamos pela calçada, um policial mirou e lançou duas granadas de gás aos nossos pés – entre os presentes, uma senhora de 60 anos que por acaso é minha mãe”, escreveu a jornalista. E acrescenta: “Também atiraram uma bala de borracha no cotovelo de uma socorrista e três bombas em um homem de muletas que tinha uma perna só.” A perna fantasma deve ter assustado bastante os policiais para eles terem tido essa reação. Quem tiver paciência (ao ver o vídeo sugerido anteriormente), conte o número de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia. Cada uma custa cerca de 800 reais. Na verdade, hoje elas devem ser mais caras. Matéria publicada no portal UOL, em 27 de junho de 2013, relata que a polícia do Rio de Janeiro precisou fazer uma compra emergencial de duas mil dessas bombas por R$ 1,6 milhão (pois a PM tinha reduzido bastante os seus estoques – “praticamente zerado” – na repressão aos protestos daquele mês). Se os números da reportagem estiverem corretos, cada bomba de gás custou 800 reais ao contribuinte (R$ 1,6 milhão dividido por 2 mil artefatos). O que é uma pechincha se realmente queremos manter a ordem.

Manifestantes de todas as origens, idades e cores precisam, infelizmente, pensar em como reagir ao inevitável turbilhão de violência policial que sempre virá a cada protesto. Essa é uma questão urgente.

Pois denunciar abusos, como os que foram relatados, de pouco tem adiantado. Nós precisamos fazer a nossa própria segurança. E aprender a defender melhor uns aos outros. É triste. Mas da polícia que, em tese, deveria nos proteger, só espero o pior.

O diabo veste farda.

3,50 NÃO! DESGASTE, GOVERNO INVISÍVEL E PODER MODERADOR

O prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, suponho, supõe que poderá dividir o “desgaste” do aumento da tarifa do transporte (em 50 centavos) com o recém-reeleito-bis-repeteco governador Geraldo Alckmin.

Suponho isso com base em declarações costumeiras do próprio Haddad que, no caso dos transportes e em outras decisões do poder municipal, sempre diz que o tema foi discutido com o governo do estado, que ele conversou com o governador, que “estamos em contato permanente” etc.

“Contato permanente” e outras falas protocolares (merdas) do tipo são um jeito elegante de dizer ao cidadão: Porra, o Alckmin também aumentou essa bosta, ele também merece apanhar! Mas será que funciona?

Relato da jornalista Monica Bergamo sobre os bastidores da revogação do aumento da tarifa, em junho de 2013, reforça, a meu ver, essa possível visão de Haddad sobre o tópico “desgaste”. Segue um trecho do relato:

Minutos antes do anúncio de que reduziriam as tarifas de ônibus e metrô, o governador Geraldo Alckmin disse ao prefeito Fernando Haddad que, caso o petista quisesse, ele estaria disposto a resistir à pressão e a manter o preço de R$ 3,20. “A gente aguenta firme, juntos”, disse Alckmin. Estavam na sala o secretário municipal de Governo, Antonio Donato, e o estadual da Casa Civil, Edson Aparecido.

A questão é que o “desgaste” de Haddad com medidas impopulares sempre será muito maior que o de Alckmin. O governador do estado dirá o contrário, é claro (“A gente aguenta firme, juntos”, como no relato da colunista Monica Bergamo).

Alckmin é matuto. O governador sabe muito bem que é o representante oculto de um “governo invisível”. Essa forma de governo, contudo, só irá funcionar com o apoio dos meios de comunicação. Coisa com a qual Alckmin conta e tem.

Um dos pioneiros da propaganda como a conhecemos, Edward Bernays, escreveu: “a manipulação inteligente das massas é um governo invisível”. Se preferir, troque o termo “massa” por “povo”. A imprensa paulista, ao menos os maiores grupos econômicos, adotou essa prática de forma um tanto simplória e literal, porém, eficaz. Darei mais de um exemplo do que seria o tal “governo invisível”.

Na noite da primeira manifestação contra o aumento da tarifa em São Paulo, na última sexta-feira, o apresentador da rádio CBN (das Organizações Globo) avisou a quem o ouvia: “Agora nós vamos falar com o repórter Fulano [não lembro o nome], que acompanha a manifestação contra o aumento do ônibus em São Paulo”. Aumento do ônibus. E só. Nada sobre trem e metrô (que também tiveram aumento e foram, igualmente, alvos do protesto).

O apresentador na ocasião, Roberto Nonato, poderá dizer que cometeu um “ato falho” e que, mais tarde, talvez naquela mesma noite, iria lembrar aos ouvintes que não havia sido apenas o aumento do ônibus a motivar o protesto. Contudo, atos falhos são frequentes em certa parcela da imprensa. Há uma rotina (precisa) no seu uso acidental.

Vou dar outro exemplo do que seria o tal “governo invisível” paulista do Sr. Geraldo Alckmin. Governo que se manifesta, sutilmente, pela negação permanente da sua existência. O que não é dito, no entanto, muitas vezes, é mais revelador do que é explicitado.

Em 18 de junho de 2013, ocorreu a sexta manifestação daquele mês convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL). No mesmo dia, logo cedo, uma enquete na página do iG perguntava: Como você classifica os atuais protestos espalhados pelo País? A página, em seguida, dava algumas opções.

Uma delas era: “Só um ato contra a tarifa de ônibus”. Destaque para o “só”. Destaque também para o fato de que, além de ônibus (a cargo do poder municipal), a tarifa de trem e metrô (de responsabilidade do governo estadual) também tinha sofrido reajuste duas semanas antes. Mais um “ato falho”, suponho.

Os principais grupos de mídia do país, qualquer pessoa honesta haverá de concordar, dispensam um tratamento bem diferente ao prefeito da capital paulista e ao governador do estado de São Paulo. Mas Haddad, surpreendentemente, parece ter pouca atenção ao tema. Azar o dele. Se ele insistir no aumento da tarifa, como parece ser o caso, eu é que não irei poupá-lo.

Vejamos o tratamento dispensando ao nosso governador e seu partido em relação a temas, digamos, delicados. Corrupção nos transportes do estado (Metrô e CPTM), por exemplo, vira “cartel das empresas”. Pouco será lembrado que, afinal, o PSDB deve muitas explicações sobre essa bandalheira (inclusive o governador Alckmin que inicia o seu quarto mandato à frente do estado). É isso mesmo. Quarto mandato. Eu não errei.

No caso da água, coloca-se a culpa em São Pedro e tá tudo certo. Ou pior: culpa-se quem nada (ou pouco) tem a ver com o tema. Não é difícil criar confusão ou, usando um termo da área de comunicação, desinformação. Basta que a imprensa não faça jornalismo.

Pesquisa do Datafolha, divulgada (com pouquíssimo destaque) em outubro do ano passado, mostra que a maior parte dos paulistanos, ao menos na época, culpava Haddad e a presidenta Dilma Rousseff pela crise hídrica do estado. Pode-se culpá-los por muita coisa, mas, nesse caso, o assunto é quase que de exclusiva responsabilidade de Alckmin.

Nas raras vezes em que Alckmin é citado como responsável ou como tendo alguma ligação com determinado assunto, ele é apresentado pela parcela da imprensa que eu citei como uma figura imperial que, diante dos apelos da plebe, irá mediar ou erradicar os conflitos que ele, coitado, nada tem a ver.

Um exemplo didático dessa forma (recorrente) de agir foi quando sua alteza, Sr. Geraldo Alckmin, desceu do trono e disse (sobre denúncias escandalosas de corrupção no Metrô e CPTM): “o estado é vítima”. Cuma? Como é que é? Mas vossa alteza me trata como um imbecil!

Claro que o estado de São Paulo foi e, provavelmente, ainda é vítima desse esquema de corrupção. Esse é o ponto. Mas o caso é que vossa alteza e sua corte governam a “vítima” desde 1994. Vossa alteza se porta, no entanto, como se não tivesse nada, absolutamente nada a ver com o assunto.

Alckmin exerce, marota e magnanimamente, uma espécie de Poder Moderador. Esse modelo curioso de poder, em tese, já erradicado, era um dos quatro previstos pela Constituição Brasileira de 1824 (quando o Brasil ainda era uma monarquia).

O Poder Moderador estava acima dos demais (Legislativo, Executivo e Judiciário). Cabendo ao Imperador, quando fosse do seu interesse, dar a palavra final sobre quaisquer temas. Alckmin reativou, na prática, esse modo de governar. Todos os demais poderes estão a ele subjugados.

Não me recordo da última vez na qual os demais poderes (no caso, Legislativo e Judiciário) ousaram, em São Paulo, enfrentá-lo ou sequer criar qualquer mínimo constrangimento que fosse. É um estado totalmente pacificado (pra usar um termo da moda). Alckmin reina absoluto por aqui. Reina, mas não governa, é claro.

SE QUEM ANDA DE HELICÓPTERO NÃO PRECISA PAGAR IMPOSTO POR QUE EU TENHO QUE PAGAR MAIS PELO ÔNIBUS E METRÔ?

Pouca gente sabe disso: donos de jatinhos, helicópteros e iates estão isentos de pagar qualquer imposto sobre essas propriedades. Isso mesmo. As pessoas mais ricas do país estão liberadas dessa obrigação.

Os proprietários de motos e carros populares, no entanto, são obrigados a pagar, anual e religiosamente, algo chamado IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores). Essa doeu, né?

Tramita no Congresso Nacional, desde 2012, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) determinando que o atual IPVA também incida sobre jatinhos, helicópteros e iates. A PEC, de número 140, é de autoria de Assis Carvalho (deputado federal do PT do Piauí).

Entretanto, os idealizadores da iniciativa são integrantes do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (SINDIFISCO NACIONAL). O SINDIFISCO também tem uma série de outras ações para combater a lógica vigente no país (que sobrecarrega os mais pobres – e classe média – e isenta os mais ricos).

Mas voltemos a Proposta de Emenda à Constituição 140 (também conhecida como “PEC dos Jatinhos”). A ideia, após a sua aprovação, é claro, é usar os recursos adicionais dessa PEC para a melhoria do transporte público de todo o país. O que eu acho muito justo.

Esse é apenas um dos muitos exemplos da profunda injustiça tributária do Brasil. Os ricos precisam contribuir mais antes das pessoas com renda menor serem, novamente, penalizadas com um aumento da tarifa dos transportes que prejudica o direito de ir e vir das pessoas muito mais do que qualquer manifestação pontual.

É o seguinte: enquanto a “PEC dos Jatinhos” não for aprovada, não vou aceitar sequer discutir qualquer aumento. Todavia, independente da aprovação (ou não) dessa proposta, há outras maneiras de financiar o transporte público.

Dados de auditoria contratada pela própria Prefeitura de São Paulo, divulgados em dezembro do ano passado, demonstram que, provavelmente, a qualidade do serviço oferecido poderia ser melhorada e muito dinheiro economizado antes de se pensar em qualquer aumento. Darei dois exemplos:

1) 10,5% das viagens programadas pelas empresas de ônibus não são realizadas (o que significa uma “economia” para os prestadores desse serviço de 30 milhões de reais por mês). Como essas viagens estão sendo pagas, não estamos falando de economia, mas de apropriação indébita. E isso faz com o que o usuário do sistema perca mais tempo nos seus deslocamentos (já que há um número menor de veículos do que o contratado circulando) e também enfrente ônibus ainda mais cheios (mas esse é um bom momento para, no caso do Metrô, “xavecar a mulherada”, como sugeriu propaganda repulsiva do Governo do Estado de São Paulo em 2014).

2) A mesma auditoria, realizada pela consultoria Ernst & Young, aponta que as empresas do setor tiveram, em média, uma TIR (Taxa Interna de Retorno) de cerca de 18% ao ano (entre 2003 e 2013). Descontando a inflação do período. Ou seja: essas empresas tiveram lucros fabulosos (só comparáveis aos dos parasitas do mercado financeiro). A própria consultoria contratada pelo município de São Paulo diz que, hoje, o razoável seria que a TIR variasse de 8% a 12%. Cálculo, convenhamos, já bastante generoso (dificilmente o teu salário teve, em algum ano, um aumento real – tirando a inflação – de dois dígitos).

Como em 2015 os contratos das empresas de ônibus se encerram, será o momento oportuno do prefeito Fernando Haddad renegociar os termos da futura licitação. Eu, se fosse ele, esperaria essa nova realidade para somente depois dizer aos paulistanos que o aumento da tarifa é realmente inevitável.

Além disso, com a recente aprovação do reajuste do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e a renegociação da dívida da prefeitura, Haddad terá mais dinheiro em caixa ou, ao menos, poderá contrair novos financiamentos para investir em áreas como a dos transportes.

Sobre o governo do estado é mais difícil falar. O governador Geraldo Alckmin jamais teve interesse, por exemplo, em esclarecer denúncias (escandalosas) de corrupção no Metrô e CPTM (finge que não tem nada a ver com a história, embora tenha muito tucano envolvido na bandalheira, e a imprensa, a parcela de sempre, o protege caninamente).

Alckmin tampouco é transparente quantos aos custos de manutenção e operação desse sistema. E ele também já demonstrou que, ao contrário de Haddad (ao menos em determinados momentos), não tem qualquer interesse em dialogar com quem quer que seja.

Se Haddad estivesse lendo, eu lhe pediria com muita educação: por favor, revogue esse aumento. Será um desgaste desnecessário para um prefeito que não será poupado (nem um tiquinho) por uma parcela bem conhecida da mídia.

Alckmin, naturalmente, será totalmente blindado pelos meios de comunicação alinhados ao seu governo e modo de governar. Apenas o senhor, digníssimo prefeito, será atacado (sobretudo se a maré virar a favor dos manifestantes, como, aliás, aconteceu em Junho de 2013). O senhor é inteligente e achará uma saída financeira para o imbróglio. O senhor, ilustríssimo alcaide, já fez isso. Preciso lembrá-lo? Talvez precise.

Após a revogação do aumento da passagem de ônibus, em 2013, para absorver o impacto financeiro da medida, o senhor suspendeu a construção de um túnel escroto que custaria R$ 2,4 bilhões aos cofres do município.

A obra, felizmente, suspensa, mais uma vez seguiria a lógica perversa do incentivo ao transporte individual. Além de exigir a remoção de 40 mil pessoas das suas moradias. O senhor recuou e sua gestão avançou (e vem, ou vinha, só melhorando desde então).

REDUÇÃO DA EMISSÃO DO GÁS CARBÔNICO: ALGO SOBRE O ACORDO CHINA-EUA QUE VOCÊ PROVAVELMENTE NÃO LEU

É quase consenso no meio científico: a emissão de gás carbônico na atmosfera, pela queima de combustíveis fósseis (a gasolina que você usa no seu carro, por exemplo) vem provocando um aumento da temperatura do planeta. E isso será danoso para o futuro da humanidade.

Recentemente, China e Estados Unidos, os dois países que mais jogam esse gás no ar que a gente respira, definiram metas para a redução dessa emissão. A notícia é ótima, é claro. Deve ser comemorada. Todavia, pra variar, não vi a nossa imprensa (sobretudo a que se autodenomina “grande”) discutir o tema com a complexidade que lhe é devida.

Para os Estados Unidos é muito conveniente se comprometer com uma redução considerável da emissão do gás carbônico. Esse é um aspecto fundamental para entender o compromisso assumido por Barack Obama. Afinal, esse país está mudando, rapidamente, a sua principal matriz energética e, infelizmente, não é por algo muito mais “limpo”.

Os EUA, hoje, é o principal produtor mundial do gás de xisto. Não por acaso: trata-se de uma questão estratégica (urgente), para os estadunidenses, diminuir a sua dependência em relação ao petróleo. A questão é que o processo para a obtenção desse gás é, aparentemente, altamente nocivo a um dos recursos imprescindíveis a nossa existência: a água.

Para “capturar” esse gás, tem sido utilizada uma tecnologia conhecida como “fraturamento hidráulico”. A técnica consiste em quebrar (ou fracionar) rochas em grandes profundidades e assim liberar o gás de xisto preso nelas (“capturando-o” em dutos que o levem até a superfície).

O problema é que essa técnica exige o uso de produtos químicos que, eventualmente, escorrerão por entre as fissuras provocadas pelo processo e irão contaminar as reservas de água no subsolo. Vazamentos dos próprios gasodutos também irão contribuir para o aumento dessa contaminação, é claro.

No ano passado, o programa “Cidades e Soluções” levou ao ar uma matéria sobre o tema (com, mais ou menos, 23 minutos de duração). Como a reportagem lembra logo de cara: “O aumento da produção interna de gás natural é um dos motivos por trás da redução expressiva da emissão dos gases do efeito estufa pela maior economia do planeta”.

Mas como a reportagem lembrará em seguida: há outros impactos ambientais a serem considerados na exploração desse gás. A imagem de fontes de água (contaminadas) pegando fogo é impressionante. Pra ver a reportagem, clique aqui.

Ou seja: para Obama, não é tão difícil assumir o compromisso de reduzir a emissão de gás carbônico pelo seu país porque essa será, ao que tudo indica, a tendência dos EUA no século XXI. Tudo por causa da mudança da sua principal matriz energética. Todavia, a nova matriz, infelizmente, pode ser tão nefasta quanto a anterior.

Isso tem tudo a ver com a gente. A Agência Nacional de Petróleo já autorizou a exploração desse tipo de gás por aqui. E a técnica a ser usada em sua exploração é idêntica. Esse é um tema importante. Mas que se desmancha no ar como os gases citados.

O SOCIALISMO É FILHO DO CAPITALISMO. PRONTO, FALEI!

Tem algo acontecendo. E não é no meu estômago. Nos últimos dias, amigos me procuraram pra compartilhar uma saudável angústia. Foi curioso. Nenhum desses amigos se conhece. Mas havia uma sintonia em sua agonia. Todos estavam, mais ou menos, insatisfeitos com as alternativas colocadas no campo político institucional e, mais especificamente, no leque de opções da última disputa eleitoral.

PSDB, dizem, é puro desalento. Os tucanos, como se sabe, defendem o capitalismo em sua forma mais brutal. Podia não ser assim no momento do nascimento do partido, mas, hoje, inegavelmente o é. PT, que possibilitou avanços tímidos, embora significativos ao país nos últimos anos, não pode ou não quer repensar suas práticas e conceitos.

Os petistas, como também é sabido, não conseguem pensar além do capitalismo. A maioria, ao menos. Ofertam, porém, uma série de políticas compensatórias para lidar com os efeitos causados por esse modelo predatório. Outros partidos à esquerda do PT (em sua maioria, suponho, de orientação socialista) se colocam como tendo alternativas radicalmente diferentes dessas. Infelizmente, eu não vejo dessa forma.

Esses partidos raciocinam em alicerces parecidos aos do PT e até mesmo do PSDB. O que muitos socialistas preferem negar (ou mesmo desconhecem) é o seguinte: o socialismo é filho do capitalismo. Sim. É duro ouvir isso: Luke, eu sou seu pai.

O grande historiador Eric Hobsbawm nos lembra disso em A Era das Revoluções (1789 – 1848)*. No Capítulo 13, ele fala das ideologias seculares surgidas na época retratada pelo puta livro:

Neste capítulo nos concentraremos no que foi, afinal, o principal tema que nasceu da revolução dupla: a natureza da sociedade e a direção para a qual ela estava se encaminhando ou deveria se encaminhar. Sobre este problema básico, havia duas divisões de opinião: a dos que aceitavam a maneira pela qual o mundo estava se conduzindo e a dos que não a aceitavam; em outras palavras, os que acreditavam no progresso e os outros. – (página 370)

Nós sabemos pra onde o mundo se encaminhou desde então. Até 1789, continua o historiador, “a formulação mais poderosa e adiantada desta ideologia de progresso tinha sido o clássico liberalismo burguês” (pág. 370). A ideologia liberal, no entanto, não entregou o que prometeu: “os verdadeiros resultados sociais e econômicos do capitalismo provaram ser menos felizes do que tinham sido previstos” (pág. 376).

As obras de Charlie Dickens (1812-1870) ainda são registros preciosos das brutais condições de vida da maioria dos britânicos da época (e esse país, naquele período, seria o difusor desse modelo para o restante do planeta). Os Estados Unidos da América pegariam o bastão no século seguinte.

Resumindo bastante (já que Hobsbawm constrói uma argumentação muito mais embasada e detalhada do que o meu texto poderá sugerir): a ideologia socialista nasce como uma (justa, eu diria) resposta ao capitalismo. Não questiona, no entanto, a sua essência, mas apenas a censurável concentração da riqueza gerada. O resultado desse modelo, desde sempre, sendo bastante comedido, tem sido controverso. Escreve Eric Hobsbawm:

O Conde Claude de Saint-Simon (1760-1825), que é por tradição reconhecido como o primeiro “socialista utópico”, embora seu pensamento na realidade ocupe uma posição bem mais ambígua, foi antes de tudo o apóstolo do “industrialismo” e dos “industrialistas” (duas palavras criadas por ele). – (pág. 380)

Hobsbawm ainda avalia: se “o capitalismo tivesse realmente alcançado aquilo que dele se esperava nos dias otimistas”, tais críticas, quem sabe, “não teriam tido ressonância” (pág. 382). Ou seja: as próprias “contradições internas” do capitalismo permitiram o surgimento e a expansão das ideias socialistas.

“O socialismo era o filho do capitalismo”, provoca o historiador britânico (pág. 386). O capitalismo e o socialismo, portanto, possuem genéticas parecidas. Defendem o mesmo modo de produção. E ambos talvez funcionassem se não vivêssemos em um planeta com recursos finitos.

Cada vez mais (espero), a humanidade se dá conta de que esse modelo de desenvolvimento é nocivo ao mundo no qual pegamos carona e, portanto, uma ameaça ao nosso próprio futuro. Debate que ainda não existia no século XIX.

No passado, podíamos aceitar a ideia de que o mais importante é dividir melhor essa suposta riqueza gerada pelas indústrias e/ou empresas de todo o tipo pra todo o sempre. Hoje me parece urgente repensarmos, inclusive, nossas noções de riqueza e desenvolvimento.

O que eu proponho, afinal? Que a gente pense no que poderia ser um modelo diferente de organização social (o que engloba muita coisa, é claro). Pois o universo é indiferente ao nosso destino. E ele continuará (com ou sem nós) a se expandir sabe-se lá pra onde.

Cito novamente Eric Hobsbawm. Na Introdução de A Era dos Extremos (1789 – 1848) ele escreve:

As palavras são testemunhas que muitas vezes falam mais alto que os documentos. Consideremos algumas palavras que foram inventadas, ou ganharam seus significados modernos, substancialmente no período de 60 anos de que trata este livro. Palavras como “indústria”, “industrial”, “fábrica”, “classe média”, “classe trabalhadora”, “capitalismo” e “socialismo.” – (pág. 19)

Ele continua:

Imaginar o mundo moderno sem estas palavras (isto é, sem as coisas e conceitos a que dão nomes) é medir a profundidade da revolução que eclodiu entre 1789 e 1848, e que constitui a maior transformação da história humana desde os tempos remotos quando o homem inventou a agricultura e a metalurgia, a escrita, a cidade e o Estado. – (pág. 20)

Quais palavras, no futuro, serão testemunhas do nosso tempo? Não sei. Mas posso imaginar alguns palavrões dos quais seremos alvos, pelas pessoas que vierem a herdar a Terra, se continuarmos nos omitindo de enfrentar questões cruciais da nossa época. A gestão desastrosa dos recursos hídricos no estado São Paulo, por exemplo, tem tudo a ver com isso.

*A Era das Revoluções (1789 – 1848) – 25ª Edição (editora Paz e Terra) – ISBN 978-85-7753-099-1

O CINISMO DOS RICOS E DO SEU FAVORITO AÉCIO NEVES NO DESPREZO A ESSA COISA SUJA CHAMADA DINHEIRO

Aécio Neves diz, com orgulho, que quando foi governador de Minas Gerais teria aberto mão de metade do seu salário. “Eu precisava dar o exemplo”, diz o candidato. Não vou entrar no mérito se isso é verdade ou não. A questão não é essa. A questão é avaliar o que estaria por trás desse discurso, aparentemente, nobre.

O que o candidato está querendo dizer, nas entrelinhas, é o seguinte: se você fosse uma pessoa de bem, desapegada como eu sou, faria o mesmo. Ou ainda: o salário não é tão importante assim, gente! Esqueçam isso! O uso da palavra “exemplo” não é por acaso.

Aécio pode abrir mão da metade ou até integralmente do seu salário. Não tenho dúvida de que ele possa fazê-lo. Pois Aécio, mais do que uma pessoa de bem, é uma pessoa de bens. Ele não depende, nem nunca dependeu de salário pra pagar as suas contas. Ele, como se sabe, é um herdeiro.

Se você não é herdeiro, desconfie desse discurso de aparente austeridade que coloca o ônus de muitos dos nossos problemas nas costas de quem vive de salário. E não estou falando dos grandes salários da República Federativa do Brasil.

Juízes federais conseguiram, recentemente, o direito de receber auxílio-moradia de cerca de 4 mil reais por mês (inclusive, o mais absurdo da história, magistrados que atuam na cidade de origem e que possuem residência própria). Se quiser saber mais um pouco sobre o tema, clique aqui. Eles ganham de auxílio o que eu não ganho de salário. Repito: não estou falando desse tipo de aberração, falo de gente comum; sem rendas vultosas ou amigos no judiciário.

O aparente desprezo de Aécio por essa coisa chamada dinheiro tem, obviamente, muitas leituras possíveis. Algumas ocultas e outras evidentes. Uma delas, e cada um decidirá se isso estaria oculto ou bastante evidenciado, é criar uma justificativa moral para o arrocho alheio.

Não é por acaso que Aécio já nomeou, por antecipação, o seu futuro ministro da Fazenda (caso ganhe a eleição, é claro). Armínio Fraga é um notório gerente de fortunas especulativas. E pelos “bons” serviços prestados, para gente como George Soros, se tornou um homem rico.

“O salário mínimo cresceu muito ao longo dos anos”, disse Fraga. Ele defende que o salário, todo o salário e não apenas o mínimo (pense nisso, caso você imagine que isso não te diz respeito: TODO o salário), deve guardar “alguma proporção com a produtividade”.

Se aceitar essa premissa, me sentirei obrigado a perguntar: e o lucro? Ele também deve estar amparado na produtividade? Deve ter algum vínculo com a realidade que o cerca? Não foi o que vimos na Europa ou Estados Unidos nos últimos anos. A despeito de um cenário de recessão (ou algo próximo disso), os lucros ficaram protegidos do mundo real que eles ajudaram a devastar. Mas sobre lucro Armínio Fraga não especula, é claro.

Gustavo Ioschpe, “especialista” em educação de uma certa “revista”, escreve (a cada greve) pedindo que os professores abandonem a sua “obsessão” por essa coisa grotesca chamada salário. Ioschpe, curiosamente, tem a mesma obsessão, da qual ele acusa os outros, por esse ponto específico de um debate tão amplo e complexo como é o da educação.

É luminoso notar que o moço, que assim como Aécio prega o desprendimento alheio, é um homem muito rico. Ele herdou o dinheiro do papai e agora usa o seu tempo livre pra disseminar o seu desprezo por essa coisa que ele tem aos montes.

Além da violência costumeira, parte dos ricos possui uma estratégia inteligente pra manter a vergonhosa concentração de renda no Brasil mais ou menos inalterada: dizem que dinheiro não é importante, mostram até certa repulsa por ele. É uma tática diversionista cínica, mas eficaz.

Os ricos, ao menos uma parte deles, darão milhões de motivos pra justificar a desigualdade social no país (que ainda é brutal). A concentração de muito, mas muito dinheiro nas mãos de uns pouquíssimos iluminados, obviamente, nunca terá relação alguma com isso. Embora essa pareça, exatamente, a raiz ou origem do problema.

Os mais despudorados ainda dirão que não existe essa coisa de “classe social”, que todo mundo é brasileiro e que, por isso, todos teríamos os mesmos objetivos. Ou seja: o dono do banco e o caixa do banco teriam os mesmos interesses na visão (totalmente desinteressada, é claro) dessa gente. Os mais espertos, por outro lado, dirão que SOMENTE com educação de mais qualidade e tal é que a desigualdade irá diminuir.

Não nego que uma melhor formação, possa ajudar nós, plebeus, a conseguirmos um trabalho mais bem pago. Mas nem a pessoa mais educada (do ponto de vista formal) poderá fugir da lógica vigente que é: rico paga menos e pobre mais imposto no Brasil. Essa distorção sacana, além de outras, é claro, é essencial pra entendermos a desigualdade em nosso país.

Países como a Suécia e a Dinamarca, sempre apontados como modelo de tudo que é bom, bonito e limpo, muito antes de criarem um sistema educacional universalizado e de qualidade, já tinham tomado medidas no sentido de diminuir as suas desigualdades sociais.

No Capítulo 8 de “A Era das Revoluções (1789 – 1848)”, o historiador Eric Hobsbawm, com base em muita pesquisa e não em achismo (essa “ciência” tão frequente hoje em dia), escreveu que reformas da década de 1780 “aboliram o feudalismo na Dinamarca” e que por volta de 1865 esse país era, primordialmente, “de proprietários camponeses independentes” (página 246).

“Na Suécia, reformas semelhantes, porém menos drásticas, tiveram os mesmos efeitos”, garante Hobsbawm (páginas 246 e 247). Isso não significa, é claro, que os cidadãos desses países já gozassem do padrão de vida que alcançariam a partir da segunda metade do século XX.

A terra, como lembra o historiador no início do capítulo de mesmo nome, era, sem dúvida, a principal fonte de riqueza da época. “O que acontecia à terra determinava a vida e a morte da maioria do seres humanos entre 1789 e 1848”, nos lembra, na página 240, o extraordinário historiador britânico.

Esses dois países, que sempre aparecem muito bem colocados nas listas das nações com os melhores padrões de desenvolvimento, fizeram a monstruosa e temida reforma agrária há muito tempo. E como se pode ver nos dias atuais, isso levou Suécia e Dinamarca ao caos. Essas informações podem ser encontradas na 25ª edição do livro já citado (editora Paz e Terra).

Obviamente, muito da riqueza europeia é fruto do saque, inclusive ao nosso país, mas essa é outra história. O importante aqui é demonstrar que, independente do volume ou extensão dessa riqueza, os aristocratas suecos e dinamarqueses foram obrigados, pelos seus respectivos povos, ainda no século XIX, a começar a dividi-la.

Mesmo essa coisa bolivariana chamada Estados Unidos começa a sua reforma agrária em 1862. A lei que determinou isso, sancionada em 20 de maio daquele ano pelo presidente Abraham Lincoln, partia da ideia de que a terra é de quem a ocupa e trabalha nela. Para mais informações, recomendo um curto e didático texto publicado no Opera Mundi (aqui).

Nesse processo, não custa lembrar, os estadunidenses desconsideraram e massacraram os índios, que já ocupavam e trabalhavam (sem dar esse nome ao que faziam) essas mesmas terras que seriam divididas entre os recém-chegados. Além disso, os EUA presenciariam um retrocesso desse modelo ao longo do século XX.

Aécio, voltemos ao “abnegado”, pode se dar ao luxo de abrir mão de coisas mundanas como o salário. O faz como suposto exemplo de retidão. Soa, pra mim, como puro cinismo. Vou usar um termo um pouco antigo em desuso: Aécio é um demagogo.

Ele faz um voto de pobreza de mentirinha. Bem diferente do de São Francisco de Assis (que, de fato, abriu mão das suas posses). É uma estratégia baixa. Repugnante até: pretende ficar só com o voto, mas sem a pobreza.