SOBRE UM OUTRO 15 DE MARÇO: QUANDO, HÁ 22 ANOS, OS FUNCIONÁRIOS DA TV MANCHETE MANDARAM UM RECADO

Não me importo com o que vai acontecer no próximo dia 15 de março. Alguns pedirão o impedimento (ou impeachment) de Dilma Rousseff. Outros a defenderão. Vou ignorar ambos. Assim como pretendo ignorar qualquer convite que vier a receber para manifestações do tipo (seja a favor ou contra a presidenta).

Contudo, é importante ressaltar, sempre critiquei governantes que poupam os ricos e impõem ainda mais sacrifícios aos pobres. E Dilma tem feito exatamente isso. Portanto: ela que ligue para banqueiros, ruralistas e outros saqueadores em busca de apoio.

Quando foi do seu interesse, Dilma reprimiu, por meio da Força Nacional de Segurança Pública, em associação com as polícias estaduais, quaisquer manifestações que não fossem do seu agrado. A presidenta também não fica constrangida com a ocupação militar da Maré.

Os debates na internet (e fora dela) sugerem uma polarização que não existe. Jornalistas de várias tendências têm contribuído para essa, repito, falsa radicalização: como se projeto da oposição e situação, aos menos dos grupos e partidos hoje mais representativos, fossem tão diferentes assim. Como se esses, aliás, tivessem algum projeto que não o da manutenção e, se possível, ampliação do pedaço de poder conquistado.

Isso não me impede, é claro, de perceber diferenças entre setores da oposição e situação. E de defender medidas com as quais eu vier a concordar (seja da oposição ou situação). Pois meu único dogma é não ter dogma.

Todavia, diante do que está instituído, ou seja, do conjunto das instituições que regem o nosso cotidiano (e não falo apenas do Estado, é claro), só posso apostar no instituinte. Ou seja: na crítica permanente ao que está colocado. Resultando, quem sabe, na criação de um novo instituído.

Com isso defendo a destruição de tudo o que está aí? Não. Defendo sim o questionamento de tudo o que está aí. Sejamos sinceros: você confia, minimamente, na polícia? Ou na justiça? Você acha o lucro dos bancos razoável ou repulsivo? Isso tudo e muito mais é o que hoje está estabelecido. É o instituído.

Gostando ou não dessa situação saiba o seguinte: ela não é imutável. Pois é fruto de lutas e acordos da sociedade. Alguns lutarão pela sua manutenção. Outros pela sua mudança. Hoje, aposto no instituinte para que, amanhã, quem sabe, tenhamos outro instituído. Pois, do interior das instituições (das profundezas do que está instituído), e essa é uma das poucas certezas que tenho na vida, não virá mudança alguma.

O que as pessoas, em geral, não percebem (ou sequer ousam pensar), é que todos nós controlamos pequenas frações dessa coisa chamada poder. A greve dos garis do Rio de Janeiro, no começo de 2014, é um bom exemplo disso.

Os garis tinham contra si tudo o que estava instituído (poder executivo – no caso, a prefeitura do Rio – judiciário etc). Até mesmo a instituição que dizia representá-los (o sindicato da categoria) estava contra. Mas o processo instituinte dos garis, visando transformar a sua condição e, portanto, o que estava instituído, foi irresistível. Seduzindo e ganhando o apoio dessa coisa chamada povo.

A importância do ofício, que o jornalista Boris Casoy classificou como o “mais baixo da escala do trabalho”, ficou evidente quando o lixo passou a se acumular nas ruas da capital fluminense. Bastou organização (o que, convenhamos, é das coisas mais difíceis), para que os garis tivessem considerável sucesso em suas reivindicações.

Em 15 de março de 1993, trabalhadores (em greve) da extinta TV Manchete perceberam que tinham em mãos um poderoso meio para difundir o seu próprio protesto. No livro “Rede Manchete: Aconteceu, virou história”, o radialista Elmo Francfort conta o episódio que começa diante da antiga sede da TV na Rua do Russel, bairro da Glória, zona sul da cidade do Rio de Janeiro:

Funcionários da Manchete participaram, na frente do prédio do Russel, de assembléia do Sindicato dos Jornalistas e Radialistas. Quando a decisão estava sendo votada, 30 funcionários invadiram o hall de entrada da Manchete, subiram pelas escadas até o 4º andar, arrombaram a porta do setor de exibição, arrancaram os cabos do patch, na engenharia, e colocaram no ar o sinal do gerador de caracteres. Um dos funcionários sentou-se ao Chyron e digitou uma mensagem sobre o logotipo da Manchete que foi ao ar para toda a rede: Estamos fora do ar, por motivos falta de pagamento dos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e parte do décimo terceiro de 1992. Cinco minutos depois, a geração de sinal para toda a rede passou a ser feita por São Paulo. A Manchete Rio tomou providências e a emissora saiu do ar às 15h15 e só retornou às 19h40. A Rede Globo aproveitou a invasão e entrou com uma câmera escondida para gravar tudo que aconteceu e na manhã seguinte, diversos jornais estampavam a notícia na página principal.

Dilma, assim como o irresponsável governador de São Paulo, Geraldo “não falta água” Alckmin, estão preocupados apenas em manter a sua fração do poder. Fração, obviamente, muito maior que a nossa. E ambos só têm aceitado dividir lascas desse pedacinho do poder com a elite de sempre.

Cabe a nós, quem estiver afim, é claro, construir novas formas de organização para uma futura sociedade na qual Dilma, Alckmin e outros estejam no mesmo patamar dos demais. Que todo mundo seja tão comum e fundamental quanto o ar que respiramos. Na minha utopia, respiraríamos um ar mais puro, é claro.

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One comment

  1. Léo, quem sabe um dia desses consigo fazer como voce: me sentar e tentar colocar minhas ideias no papel. As coisas sao muito complexas. Os jogos de forças existem em níveis muito diversos, e acredito que seria interessante poder esmiuça-los para enxergar os tais níveis, sem que um tape o outro. E sim, todos somos atores políticos. Parabéns pelo esforço de plasmar aqui o que voce pensa.

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