PARA MANIFESTANTES ENDIABRADOS: A TEORIA DOS DOIS DEMÔNIOS

A criação da teoria do título é atribuída ao escritor argentino Ernesto Sabato. No ocaso da última ditadura do seu país, que se encerrou em 1983, ele foi nomeado presidente de uma comissão encarregada de investigar os crimes cometidos durante o regime de exceção.

Nesse momento, Sabato formula a tese que igualaria a violência do aparato repressivo estatal com a de organizações que o combateram. Um pouco da sua e dessa história, em artigo do professor de literatura Idelber Avelar, aqui.

Desde então, essa ideia ganhou força entre os defensores mais ardilosos das ditaduras que se instalaram em vários países da América Latina a partir, sobretudo, da segunda metade do século XX.

Essas pessoas, ainda que com muitas ressalvas, passaram a reconhecer que as ditaduras se “excederam” em vários momentos, que houve “alguma” violência etc. Todavia, que isso teria sido necessário para acabar com uma ameaça muito pior. Ou ainda: que a violência teria sido somente uma resposta aos grupos armados de esquerda. Seria, portanto, a luta de um demônio contra o outro.

Não vou me deter sobre ditaduras de outros países da região. Mas no caso Brasil, essa teoria não cola (mesmo que aceitássemos o argumento repulsivo de que certas brutalidades devem ser praticadas para evitar que outras brutalidades aconteçam). Explico:

a) A teoria dos dois demônios pressupõe uma equivalência de forças (satanás versus satanás). O golpe de 1964 encontrou pouquíssima resistência. Foram poucas horas entre o início da ação golpista (quando o general Olímpio Mourão Filho, a frente das suas tropas, marcha de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro) e o seu desfecho com verniz de legalidade (quando o parlamentar golpista Ranieri Mazzili, presidente da câmara dos deputados, assume a presidência interinamente). Tudo transcorreu entre a manhã de 31 de março e a madrugada do dia 2 de abril. O jornalista Mário Magalhães relata, em seu blog, as horas iniciais do golpe.

b) Além disso, a teoria de Sabato sugere que determinada força militar foi obrigada a agir diante de uma ameaça a sua própria existência. No caso do Brasil, isso não procede. Tanto a ação armada na cidade quanto a tentativa de guerrilha no campo (como a do Araguaia) foram, do ponto de vista militar, um fracasso retumbante. Um demônio que não ameace, de fato, o outro não pode ser considerado tão maligno assim.

A teoria dos dois demônios, com alguma frequência, é retomada para justificar a violência policial contra manifestantes (como no caso do primeiro ato contra o aumento da tarifa do transporte, ocorrido no dia 9 de janeiro em São Paulo).

Parcela da imprensa (a de sempre) diz que a PM “precisou agir” para “conter” manifestantes mais exaltados que estariam depredando sei lá o que. Portanto, toda a violência e abusos posteriores se justificariam. Parte da população (a de sempre) aplaude.

Uma vez ouvi em uma rádio da capital paulista uma “repórter” dizendo (mais ou menos): “A polícia jogou uma bomba pra acalmar a situação”. Juro. Sem dúvida, essa é a melhor maneira de “acalmar” qualquer situação.

Feito esse preâmbulo (e ainda com a teoria dos dois demônios na cabeça), gostaria de fazer algumas considerações finais:

1. A violência praticada contra um ser humano e contra uma vidraça não é, de forma alguma, equivalente. Objetos inanimados, eu aprendi na escola, não sangram. Acho importante fazer essa observação.

2. Lutar contra o abuso policial é uma forma de resistência (e não de violência). Se defender não é crime e até a nossa legislação reconhece isso. Há uma ação, quase inócua, é verdade, praticada por alguns manifestantes que é a de bloquear ruas (com lixo e outros objetos) para atrasar o avanço policial. Muitos, suponho, sequer fazem isso pensando em retardar a PM. A tropa de choque utiliza uma formação clássica romana (com um escudo colado ao outro). Você certamente já viu essa disposição dos antigos soldados do Império Romano em filmes. Um bom exemplo é “Spartacus”, de Stanley Kubrick. O filme trata de uma rebelião de escravos liderada por Spartacus. Há uma sequência fenomenal (a da batalha final) que mostra os escravos tentando, com toras em chamas, furar a formação (escudo/escudo) do exército romano. Tática que tornou Roma, durante séculos, imbatível nos campos de batalha. Spartacus sabia que se os seus liderados não conseguissem abrir buracos no compacto exército romano, não haveria chance de vitória. Mas não conto o final. Manter a formação ao estilo romano é fundamental para o sucesso da tática. A tropa de choque de São Paulo sabe disso, é claro. Cada obstáculo na via, no entanto, exige que a formação se desfaça (ainda que por poucos segundos). Isso, naturalmente, pode atrasar o seu avanço e dar uma chance maior de fuga aos manifestantes. Logicamente, uma pessoa em fuga é alguém que não pretende se confrontar com o outro que a persegue. Mas a PM de São Paulo, com frequência, não tem como objetivo somente “dispersar” os manifestantes. Imagens e relatos da última manifestação (e de anteriores) demonstram que, muitas vezes, a ideia da polícia é de encurralar os manifestantes não dando a possibilidade de uma rota de fuga. A jornalista Eliane Brum escreveu um excelente relato sobre a repressão brutal de 9 de janeiro (aqui). Não vou me surpreender se alguém morrer pisoteado nas próximas manifestações. A polícia do governador Geraldo Alckmin tem trabalhado pra isso.

3. A total desproporcionalidade da ação policial tem sido rotina. Um vídeo que mostra o início da repressão ao ato do dia 9 de janeiro é bastante ilustrativo. Filmado do alto de um prédio, ele demonstra que a PM joga uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo em manifestantes que não representam qualquer ameaça (nem ao sagrado patrimônio e muitos menos aos próprios policiais). Alguém poderia argumentar que uma parte (bem menor, é importante ressaltar) dos manifestantes, estaria violentando objetos inanimados e que a PM precisava contê-los. Bom, bastava cercar esse grupo menor (a vanguarda da manifestação) e poupar o restante dos manifestantes (bem mais ao fundo). Não seria essa a melhor forma de contê-los? Relato da minha ex-colega de faculdade, Vanessa Barbara, que estava na “rabeira” da manifestação, demonstra que a ideia dos policiais, além de amontoar (perigosamente) as pessoas, era também, se possível, atingi-las de formas variadas (ainda que elas não esboçassem qualquer coisa que soasse como a mais remota ameaça aos policiais). “Pedi calma. Ainda assim eles atiraram bombas de gás contra nós. Enquanto fugíamos pela calçada, um policial mirou e lançou duas granadas de gás aos nossos pés – entre os presentes, uma senhora de 60 anos que por acaso é minha mãe”, escreveu a jornalista. E acrescenta: “Também atiraram uma bala de borracha no cotovelo de uma socorrista e três bombas em um homem de muletas que tinha uma perna só.” A perna fantasma deve ter assustado bastante os policiais para eles terem tido essa reação. Quem tiver paciência (ao ver o vídeo sugerido anteriormente), conte o número de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia. Cada uma custa cerca de 800 reais. Na verdade, hoje elas devem ser mais caras. Matéria publicada no portal UOL, em 27 de junho de 2013, relata que a polícia do Rio de Janeiro precisou fazer uma compra emergencial de duas mil dessas bombas por R$ 1,6 milhão (pois a PM tinha reduzido bastante os seus estoques – “praticamente zerado” – na repressão aos protestos daquele mês). Se os números da reportagem estiverem corretos, cada bomba de gás custou 800 reais ao contribuinte (R$ 1,6 milhão dividido por 2 mil artefatos). O que é uma pechincha se realmente queremos manter a ordem.

Manifestantes de todas as origens, idades e cores precisam, infelizmente, pensar em como reagir ao inevitável turbilhão de violência policial que sempre virá a cada protesto. Essa é uma questão urgente.

Pois denunciar abusos, como os que foram relatados, de pouco tem adiantado. Nós precisamos fazer a nossa própria segurança. E aprender a defender melhor uns aos outros. É triste. Mas da polícia que, em tese, deveria nos proteger, só espero o pior.

O diabo veste farda.

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