3,50 NÃO! DESGASTE, GOVERNO INVISÍVEL E PODER MODERADOR

O prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, suponho, supõe que poderá dividir o “desgaste” do aumento da tarifa do transporte (em 50 centavos) com o recém-reeleito-bis-repeteco governador Geraldo Alckmin.

Suponho isso com base em declarações costumeiras do próprio Haddad que, no caso dos transportes e em outras decisões do poder municipal, sempre diz que o tema foi discutido com o governo do estado, que ele conversou com o governador, que “estamos em contato permanente” etc.

“Contato permanente” e outras falas protocolares (merdas) do tipo são um jeito elegante de dizer ao cidadão: Porra, o Alckmin também aumentou essa bosta, ele também merece apanhar! Mas será que funciona?

Relato da jornalista Monica Bergamo sobre os bastidores da revogação do aumento da tarifa, em junho de 2013, reforça, a meu ver, essa possível visão de Haddad sobre o tópico “desgaste”. Segue um trecho do relato:

Minutos antes do anúncio de que reduziriam as tarifas de ônibus e metrô, o governador Geraldo Alckmin disse ao prefeito Fernando Haddad que, caso o petista quisesse, ele estaria disposto a resistir à pressão e a manter o preço de R$ 3,20. “A gente aguenta firme, juntos”, disse Alckmin. Estavam na sala o secretário municipal de Governo, Antonio Donato, e o estadual da Casa Civil, Edson Aparecido.

A questão é que o “desgaste” de Haddad com medidas impopulares sempre será muito maior que o de Alckmin. O governador do estado dirá o contrário, é claro (“A gente aguenta firme, juntos”, como no relato da colunista Monica Bergamo).

Alckmin é matuto. O governador sabe muito bem que é o representante oculto de um “governo invisível”. Essa forma de governo, contudo, só irá funcionar com o apoio dos meios de comunicação. Coisa com a qual Alckmin conta e tem.

Um dos pioneiros da propaganda como a conhecemos, Edward Bernays, escreveu: “a manipulação inteligente das massas é um governo invisível”. Se preferir, troque o termo “massa” por “povo”. A imprensa paulista, ao menos os maiores grupos econômicos, adotou essa prática de forma um tanto simplória e literal, porém, eficaz. Darei mais de um exemplo do que seria o tal “governo invisível”.

Na noite da primeira manifestação contra o aumento da tarifa em São Paulo, na última sexta-feira, o apresentador da rádio CBN (das Organizações Globo) avisou a quem o ouvia: “Agora nós vamos falar com o repórter Fulano [não lembro o nome], que acompanha a manifestação contra o aumento do ônibus em São Paulo”. Aumento do ônibus. E só. Nada sobre trem e metrô (que também tiveram aumento e foram, igualmente, alvos do protesto).

O apresentador na ocasião, Roberto Nonato, poderá dizer que cometeu um “ato falho” e que, mais tarde, talvez naquela mesma noite, iria lembrar aos ouvintes que não havia sido apenas o aumento do ônibus a motivar o protesto. Contudo, atos falhos são frequentes em certa parcela da imprensa. Há uma rotina (precisa) no seu uso acidental.

Vou dar outro exemplo do que seria o tal “governo invisível” paulista do Sr. Geraldo Alckmin. Governo que se manifesta, sutilmente, pela negação permanente da sua existência. O que não é dito, no entanto, muitas vezes, é mais revelador do que é explicitado.

Em 18 de junho de 2013, ocorreu a sexta manifestação daquele mês convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL). No mesmo dia, logo cedo, uma enquete na página do iG perguntava: Como você classifica os atuais protestos espalhados pelo País? A página, em seguida, dava algumas opções.

Uma delas era: “Só um ato contra a tarifa de ônibus”. Destaque para o “só”. Destaque também para o fato de que, além de ônibus (a cargo do poder municipal), a tarifa de trem e metrô (de responsabilidade do governo estadual) também tinha sofrido reajuste duas semanas antes. Mais um “ato falho”, suponho.

Os principais grupos de mídia do país, qualquer pessoa honesta haverá de concordar, dispensam um tratamento bem diferente ao prefeito da capital paulista e ao governador do estado de São Paulo. Mas Haddad, surpreendentemente, parece ter pouca atenção ao tema. Azar o dele. Se ele insistir no aumento da tarifa, como parece ser o caso, eu é que não irei poupá-lo.

Vejamos o tratamento dispensando ao nosso governador e seu partido em relação a temas, digamos, delicados. Corrupção nos transportes do estado (Metrô e CPTM), por exemplo, vira “cartel das empresas”. Pouco será lembrado que, afinal, o PSDB deve muitas explicações sobre essa bandalheira (inclusive o governador Alckmin que inicia o seu quarto mandato à frente do estado). É isso mesmo. Quarto mandato. Eu não errei.

No caso da água, coloca-se a culpa em São Pedro e tá tudo certo. Ou pior: culpa-se quem nada (ou pouco) tem a ver com o tema. Não é difícil criar confusão ou, usando um termo da área de comunicação, desinformação. Basta que a imprensa não faça jornalismo.

Pesquisa do Datafolha, divulgada (com pouquíssimo destaque) em outubro do ano passado, mostra que a maior parte dos paulistanos, ao menos na época, culpava Haddad e a presidenta Dilma Rousseff pela crise hídrica do estado. Pode-se culpá-los por muita coisa, mas, nesse caso, o assunto é quase que de exclusiva responsabilidade de Alckmin.

Nas raras vezes em que Alckmin é citado como responsável ou como tendo alguma ligação com determinado assunto, ele é apresentado pela parcela da imprensa que eu citei como uma figura imperial que, diante dos apelos da plebe, irá mediar ou erradicar os conflitos que ele, coitado, nada tem a ver.

Um exemplo didático dessa forma (recorrente) de agir foi quando sua alteza, Sr. Geraldo Alckmin, desceu do trono e disse (sobre denúncias escandalosas de corrupção no Metrô e CPTM): “o estado é vítima”. Cuma? Como é que é? Mas vossa alteza me trata como um imbecil!

Claro que o estado de São Paulo foi e, provavelmente, ainda é vítima desse esquema de corrupção. Esse é o ponto. Mas o caso é que vossa alteza e sua corte governam a “vítima” desde 1994. Vossa alteza se porta, no entanto, como se não tivesse nada, absolutamente nada a ver com o assunto.

Alckmin exerce, marota e magnanimamente, uma espécie de Poder Moderador. Esse modelo curioso de poder, em tese, já erradicado, era um dos quatro previstos pela Constituição Brasileira de 1824 (quando o Brasil ainda era uma monarquia).

O Poder Moderador estava acima dos demais (Legislativo, Executivo e Judiciário). Cabendo ao Imperador, quando fosse do seu interesse, dar a palavra final sobre quaisquer temas. Alckmin reativou, na prática, esse modo de governar. Todos os demais poderes estão a ele subjugados.

Não me recordo da última vez na qual os demais poderes (no caso, Legislativo e Judiciário) ousaram, em São Paulo, enfrentá-lo ou sequer criar qualquer mínimo constrangimento que fosse. É um estado totalmente pacificado (pra usar um termo da moda). Alckmin reina absoluto por aqui. Reina, mas não governa, é claro.

Advertisements

One comment

  1. Concordo contigo meu querido Leonardo. Assim vai se elegendo o governo invisível por mais de 20 anos. Alckmin não só tem o Poder Legislativo como também o Judiciário e instituições que deveriam ser neutras, tais como o Ministério Público. Mais do que tudo, acrescenta-se a mídia e os anti-petistas da elite paulista. Resta-lhe não ter nem estar em evidência. Como disse, é matuto, e como político sabe muito bem exercer seu papel.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s