Month: November 2014

REDUÇÃO DA EMISSÃO DO GÁS CARBÔNICO: ALGO SOBRE O ACORDO CHINA-EUA QUE VOCÊ PROVAVELMENTE NÃO LEU

É quase consenso no meio científico: a emissão de gás carbônico na atmosfera, pela queima de combustíveis fósseis (a gasolina que você usa no seu carro, por exemplo) vem provocando um aumento da temperatura do planeta. E isso será danoso para o futuro da humanidade.

Recentemente, China e Estados Unidos, os dois países que mais jogam esse gás no ar que a gente respira, definiram metas para a redução dessa emissão. A notícia é ótima, é claro. Deve ser comemorada. Todavia, pra variar, não vi a nossa imprensa (sobretudo a que se autodenomina “grande”) discutir o tema com a complexidade que lhe é devida.

Para os Estados Unidos é muito conveniente se comprometer com uma redução considerável da emissão do gás carbônico. Esse é um aspecto fundamental para entender o compromisso assumido por Barack Obama. Afinal, esse país está mudando, rapidamente, a sua principal matriz energética e, infelizmente, não é por algo muito mais “limpo”.

Os EUA, hoje, é o principal produtor mundial do gás de xisto. Não por acaso: trata-se de uma questão estratégica (urgente), para os estadunidenses, diminuir a sua dependência em relação ao petróleo. A questão é que o processo para a obtenção desse gás é, aparentemente, altamente nocivo a um dos recursos imprescindíveis a nossa existência: a água.

Para “capturar” esse gás, tem sido utilizada uma tecnologia conhecida como “fraturamento hidráulico”. A técnica consiste em quebrar (ou fracionar) rochas em grandes profundidades e assim liberar o gás de xisto preso nelas (“capturando-o” em dutos que o levem até a superfície).

O problema é que essa técnica exige o uso de produtos químicos que, eventualmente, escorrerão por entre as fissuras provocadas pelo processo e irão contaminar as reservas de água no subsolo. Vazamentos dos próprios gasodutos também irão contribuir para o aumento dessa contaminação, é claro.

No ano passado, o programa “Cidades e Soluções” levou ao ar uma matéria sobre o tema (com, mais ou menos, 23 minutos de duração). Como a reportagem lembra logo de cara: “O aumento da produção interna de gás natural é um dos motivos por trás da redução expressiva da emissão dos gases do efeito estufa pela maior economia do planeta”.

Mas como a reportagem lembrará em seguida: há outros impactos ambientais a serem considerados na exploração desse gás. A imagem de fontes de água (contaminadas) pegando fogo é impressionante. Pra ver a reportagem, clique aqui.

Ou seja: para Obama, não é tão difícil assumir o compromisso de reduzir a emissão de gás carbônico pelo seu país porque essa será, ao que tudo indica, a tendência dos EUA no século XXI. Tudo por causa da mudança da sua principal matriz energética. Todavia, a nova matriz, infelizmente, pode ser tão nefasta quanto a anterior.

Isso tem tudo a ver com a gente. A Agência Nacional de Petróleo já autorizou a exploração desse tipo de gás por aqui. E a técnica a ser usada em sua exploração é idêntica. Esse é um tema importante. Mas que se desmancha no ar como os gases citados.

Advertisements

O SOCIALISMO É FILHO DO CAPITALISMO. PRONTO, FALEI!

Tem algo acontecendo. E não é no meu estômago. Nos últimos dias, amigos me procuraram pra compartilhar uma saudável angústia. Foi curioso. Nenhum desses amigos se conhece. Mas havia uma sintonia em sua agonia. Todos estavam, mais ou menos, insatisfeitos com as alternativas colocadas no campo político institucional e, mais especificamente, no leque de opções da última disputa eleitoral.

PSDB, dizem, é puro desalento. Os tucanos, como se sabe, defendem o capitalismo em sua forma mais brutal. Podia não ser assim no momento do nascimento do partido, mas, hoje, inegavelmente o é. PT, que possibilitou avanços tímidos, embora significativos ao país nos últimos anos, não pode ou não quer repensar suas práticas e conceitos.

Os petistas, como também é sabido, não conseguem pensar além do capitalismo. A maioria, ao menos. Ofertam, porém, uma série de políticas compensatórias para lidar com os efeitos causados por esse modelo predatório. Outros partidos à esquerda do PT (em sua maioria, suponho, de orientação socialista) se colocam como tendo alternativas radicalmente diferentes dessas. Infelizmente, eu não vejo dessa forma.

Esses partidos raciocinam em alicerces parecidos aos do PT e até mesmo do PSDB. O que muitos socialistas preferem negar (ou mesmo desconhecem) é o seguinte: o socialismo é filho do capitalismo. Sim. É duro ouvir isso: Luke, eu sou seu pai.

O grande historiador Eric Hobsbawm nos lembra disso em A Era das Revoluções (1789 – 1848)*. No Capítulo 13, ele fala das ideologias seculares surgidas na época retratada pelo puta livro:

Neste capítulo nos concentraremos no que foi, afinal, o principal tema que nasceu da revolução dupla: a natureza da sociedade e a direção para a qual ela estava se encaminhando ou deveria se encaminhar. Sobre este problema básico, havia duas divisões de opinião: a dos que aceitavam a maneira pela qual o mundo estava se conduzindo e a dos que não a aceitavam; em outras palavras, os que acreditavam no progresso e os outros. – (página 370)

Nós sabemos pra onde o mundo se encaminhou desde então. Até 1789, continua o historiador, “a formulação mais poderosa e adiantada desta ideologia de progresso tinha sido o clássico liberalismo burguês” (pág. 370). A ideologia liberal, no entanto, não entregou o que prometeu: “os verdadeiros resultados sociais e econômicos do capitalismo provaram ser menos felizes do que tinham sido previstos” (pág. 376).

As obras de Charlie Dickens (1812-1870) ainda são registros preciosos das brutais condições de vida da maioria dos britânicos da época (e esse país, naquele período, seria o difusor desse modelo para o restante do planeta). Os Estados Unidos da América pegariam o bastão no século seguinte.

Resumindo bastante (já que Hobsbawm constrói uma argumentação muito mais embasada e detalhada do que o meu texto poderá sugerir): a ideologia socialista nasce como uma (justa, eu diria) resposta ao capitalismo. Não questiona, no entanto, a sua essência, mas apenas a censurável concentração da riqueza gerada. O resultado desse modelo, desde sempre, sendo bastante comedido, tem sido controverso. Escreve Eric Hobsbawm:

O Conde Claude de Saint-Simon (1760-1825), que é por tradição reconhecido como o primeiro “socialista utópico”, embora seu pensamento na realidade ocupe uma posição bem mais ambígua, foi antes de tudo o apóstolo do “industrialismo” e dos “industrialistas” (duas palavras criadas por ele). – (pág. 380)

Hobsbawm ainda avalia: se “o capitalismo tivesse realmente alcançado aquilo que dele se esperava nos dias otimistas”, tais críticas, quem sabe, “não teriam tido ressonância” (pág. 382). Ou seja: as próprias “contradições internas” do capitalismo permitiram o surgimento e a expansão das ideias socialistas.

“O socialismo era o filho do capitalismo”, provoca o historiador britânico (pág. 386). O capitalismo e o socialismo, portanto, possuem genéticas parecidas. Defendem o mesmo modo de produção. E ambos talvez funcionassem se não vivêssemos em um planeta com recursos finitos.

Cada vez mais (espero), a humanidade se dá conta de que esse modelo de desenvolvimento é nocivo ao mundo no qual pegamos carona e, portanto, uma ameaça ao nosso próprio futuro. Debate que ainda não existia no século XIX.

No passado, podíamos aceitar a ideia de que o mais importante é dividir melhor essa suposta riqueza gerada pelas indústrias e/ou empresas de todo o tipo pra todo o sempre. Hoje me parece urgente repensarmos, inclusive, nossas noções de riqueza e desenvolvimento.

O que eu proponho, afinal? Que a gente pense no que poderia ser um modelo diferente de organização social (o que engloba muita coisa, é claro). Pois o universo é indiferente ao nosso destino. E ele continuará (com ou sem nós) a se expandir sabe-se lá pra onde.

Cito novamente Eric Hobsbawm. Na Introdução de A Era dos Extremos (1789 – 1848) ele escreve:

As palavras são testemunhas que muitas vezes falam mais alto que os documentos. Consideremos algumas palavras que foram inventadas, ou ganharam seus significados modernos, substancialmente no período de 60 anos de que trata este livro. Palavras como “indústria”, “industrial”, “fábrica”, “classe média”, “classe trabalhadora”, “capitalismo” e “socialismo.” – (pág. 19)

Ele continua:

Imaginar o mundo moderno sem estas palavras (isto é, sem as coisas e conceitos a que dão nomes) é medir a profundidade da revolução que eclodiu entre 1789 e 1848, e que constitui a maior transformação da história humana desde os tempos remotos quando o homem inventou a agricultura e a metalurgia, a escrita, a cidade e o Estado. – (pág. 20)

Quais palavras, no futuro, serão testemunhas do nosso tempo? Não sei. Mas posso imaginar alguns palavrões dos quais seremos alvos, pelas pessoas que vierem a herdar a Terra, se continuarmos nos omitindo de enfrentar questões cruciais da nossa época. A gestão desastrosa dos recursos hídricos no estado São Paulo, por exemplo, tem tudo a ver com isso.

*A Era das Revoluções (1789 – 1848) – 25ª Edição (editora Paz e Terra) – ISBN 978-85-7753-099-1