SEGUNDO TURNO: SOBRE A COERÊNCIA OU INCOERÊNCIA DOS APOIOS

Os candidatos à presidência derrotados ou partidos que fizeram parte dessas coligações, com o início do segundo turno, começaram a declarar apoio (ou não) a um dos dois concorrentes que restam: Aécio Neves e Dilma Rousseff.

Acredito que a maioria dos eleitores, tradicionalmente, não se guia muito por essas alianças ou declarações de apoio. Por exemplo: independente do posicionamento de Marina Silva, parte dos seus eleitores já está, com certeza, determinada a votar em um ou outro candidato ou a não votar em ninguém.

Tratarei apenas das candidaturas e partidos que considero mais relevantes nessa disputa. Não irei tratar de todo mundo. Vamos lá:

Luciana Genro (PSOL) e seu partido não apoiam ninguém, mas se colocaram (claramente) contra a candidatura de Aécio “vetando-a”: COERENTE. O posicionamento de Luciana e seu partido, obviamente, tende a favorecer Dilma. Mas é coerente. Se o partido se coloca como defensor de ideias diferentes dessas duas candidaturas (PSDB e PT) não faria sentido apoiar um ou outro. O que não significa considerar as duas candidaturas como a mesma coisa. O posicionamento ativo contra Aécio significa dizer que Dilma, ainda que ruim, é menos ruim que o seu concorrente. Análise com a qual eu concordo.

Eduardo Jorge (PV) apoia Aécio Neves: COERENTE. Muita gente se disse surpresa com isso. Essas pessoas, me desculpe, são ignorantes no tema. O partido de Eduardo Jorge, ao menos em São Paulo, sempre apoiou o PSDB e aliados. Repito: sempre. E mesmo com a gestão desastrosa dos recursos hídricos aqui no estado, continua e, ao que tudo indica, continuará apoiando. Respeito Eduardo Jorge: ele foi uma das figuras mais importantes para que hoje o Brasil possa ter um Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS está longe de ser uma beleza, é claro. Mas antes nem isso nós tínhamos. Eduardo Jorge também foi Secretário do Verde e Meio Ambiente nas gestões irmãs de Serra e Kassab na prefeitura de São Paulo. Ou seja: já é aliado dessa gente faz muito tempo.

Pastor Everaldo apoia Aécio Neves: MAIS DO QUE COERENTE. Quando ele fala que vai “passar tudo” pra iniciativa privada está dizendo, de forma bem tosca, que compactua com as ideias privatizantes do candidato Aécio Neves.

PSB apoia Aécio Neves: INCOERENTE. O partido no qual Marina Silva pegou carona e se candidatou nas eleições desse ano sempre se apresentou como uma legenda com ideias bem diferentes das de Aécio Neves/PSDB. Teve entre os seus fundadores, nos anos 40 do século passado, gente brilhante como o jornalista Joel Silveira e o pensador Antonio Candido. Desde o início, se colocava como um partido da chamada esquerda democrática (que tem várias definições possíveis, mas darei uma: que se coloca em oposição, no campo da esquerda, aos, quase sempre, sectários e autoritários partidos de esquerda de orientação stalinista). Na refundação do partido, após a nossa última ditadura, um dos seus principais líderes foi Miguel Arraes. O PSB, durante muitos anos, foi aliado, no plano federal, de Lula e Dilma. Ou seja: estaria, em tese, muito mais próximo dos petistas do que dos tucanos. Contudo, talvez esse posicionamento seja coerente com as mudanças ocorridas nesse partido mais recentemente (que hoje tem cada vez mais figuras tidas, até então, como de direita em suas fileiras). Luiza Erundina, que é voz cada vez mais isolada nesse partido, se posicionou sobre esse apoio chamando-o de “incoerente” e “vexatório”. Felizmente, o PSB parece dividido (o que mostra um mínimo de coerência com a sua história).

REDE apoia Aécio Neves, branco ou nulo: TOTAL E BURRAMENTE INCOERENTE. Pega muito, mas muito mal a Rede (partido de Marina Silva que ainda não existe formalmente) ter essa postura tão, pra dizer o mínimo, ambígua. Uma postura de tamanha indecisão e covardia que quando eu a ouvi pela primeira vez, na fala de uma repórter do Jornal da Globo na madrugada de quarta pra quinta-feira (8/9 de outubro), fiquei totalmente confuso. Tentei, minutos depois, explicar a decisão da Rede pra minha esposa e não consegui. Juro! Dou um desconto porque ambos estávamos com sono. Mas lembro muito bem da sensação que o posicionamento ambíguo da Rede criou nas minhas entranhas: essa é a boa, velha e matreira “velha” política. Explico.

    1. A Rede sugere que o seu eleitor vote em Aécio… Ou não. Pode também votar em branco ou nulo. Parece uma estratégia muito esperta de não alinhamento firme com esse ou aquele candidato, mas, sempre na minha avaliação, manda uma mensagem clara quando decifrada: nós, da Rede, sempre nos apresentamos como um caminho diferente do PT e PSDB, mas, na verdade, estamos mais próximos do PSDB. Todavia, como poderia pegar mal assumir isso lhe daremos três opções com apenas um nome.
    2. Essa postura pra lá de ambígua indica um partido, e isso pode ser algo saudável, dividido. A Rede, que se apresenta desde o começo como uma “terceira via”, seria mais coerente se se posicionasse de forma neutra. Afinal, entendam, não sou eu quem diz, mas o próprio partido: somos diferentes tanto do PT quanto do PSDB. Se alguém ainda acreditava nisso (coisa na qual eu jamais acreditei), agora ficará difícil continuar com essa crença. A Rede, com essa postura, antes mesmo de nascer, ruma na direção de se tornar um partido politicamente inexpressivo (mais um entre tantas legendas nanicas ou de aluguel).

Marina Silva: quando ela se posicionar, eu me posiciono. Mas a demora não deixa de ser coerente.

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