SOBRE A APARENTE DISFUNCIONALIDADE DO MUNDO: CRÍTICA BEM ATRASADA AO FENÔMENO “TROPA DE ELITE”

José Padilha, com os dois filmes da série “Tropa de Elite”, foi acusado, por muitos, de ser fascista. Bobagem. Uma pena que uma palavra tão significativa seja usada de forma tão irresponsável e corriqueira. O que, aliás, tem contribuído para a sua banalização. Quem conhece a carreira de Padilha sabe que a acusação não se sustenta (sugiro pra quem ainda não viu, os documentários “Garapa” e “Ônibus 174”).

Padilha foi, no entanto, pouquíssimo acusado de ser raso. Ou seja: de oferecer pouca ou limitada crítica nesses dois filmes. E essa, na minha avaliação, seria uma acusação mais justa. Gosto de alguns aspectos desses filmes. Esteticamente, adicionou algo ao padrão iniciado por “Cidade de Deus” (hoje, convenhamos, mais do que desgastado).

Mas no campo da narrativa, nenhuma novidade. Embora seja compreensível a opção do Capitão Nascimento narrar os fatos. Padilha deixa claro, com isso, que é o ponto de vista do matador e não dele o fio condutor da história. Repito: gosto de alguns aspectos desses dois filmes.

No primeiro, Capitão Nascimento fala da guerra entre policiais e traficantes (na verdade, meros atravessadores; mas aí já é outra história). No segundo, o mesmo Capitão “descobre”, embora isso já esteja sugerido no primeiro, que policiais corruptos fazem negócios com traficantes e, às vezes, ocupam o seu lugar. E que, a partir daí, os novos donos desses territórios logo se associam a políticos e transformam essas regiões em currais eleitorais.

Nas eleições desse ano, candidatos no estado do Rio de Janeiro denunciaram que, em certas áreas, só era permitida campanha de determinadas pessoas. Ou seja: a denúncia do segundo “Tropa” é atual e certeira. Lamentei que Padilha não sinalizasse, ao menos na época, com um terceiro filme.

Sugeri, só na minha cabeça, é claro, até um esboço de roteiro para o fim da trilogia: agora o Capitão Nascimento avançaria mais em sua crítica e “descobriria” a relação entre políticos (que pareciam ser o ponto mais alto de todo o esquema) e a iniciativa privada (que investe nessa gentalha – e o termo investimento não é descuido – para ganhar muito dinheiro em futuras licitações e contratos públicos milionários).

Todavia, o grande furo crítico de Padilha não é a necessidade de, talvez, avançar. Mas sim de recuar. E assim conseguir ter uma visão melhor do todo. Nos dois “Tropas”, embora fique claro quem mais ou menos se beneficia de toda a bandalheira, o mundo, no caso o Brasil, nos é apresentado como algo totalmente disfuncional. A sensação, ao menos eu senti isso na época, é essa.

Usemos a polícia como exemplo, é claro. A maneira como a polícia brasileira foi constituída não favorece que ela possa investigar os crimes. O que soa surpreendente, afinal, não seria essa a missão principal dessa instituição? E quando investiga, a resolução desses crimes é baixa. Isso não se dá pelo acaso. É mera consequência do modelo de polícia que nós temos.

A polícia, no Brasil, foi criada como um aparelho quase que exclusivamente repressivo (e não investigativo ou preventivo). A sua estruturação nos moldes militares se justifica plenamente dentro dessa lógica. Trata-se de uma força de quase permanente ocupação. Sobretudo nos territórios mais pobres do país.

Uso o fenômeno “Tropa de Elite” pra contestar a afirmação de que o Brasil não deu certo. Não há, em qualquer parte do planeta, um país do nosso porte (em termos econômicos e populacionais), no qual a concentração de renda seja tão brutal. O modelo pensando pela nossa elite, nesse sentido, é um sucesso estrondoso. A disfunção é só aparente, ela tem uma função clara.

As consequências desse modelo de país são sentidas pela maioria e cria, naturalmente, uma sensação de caos. É um equívoco. Caos significa confusão, desordem. Nossa elite não está nada confusa quanto a sua missão nessa terra ou ao seu eterno direito ao saque. Há método na “bagunça”.

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