CHAMAR O ELEITOR DE BURRO NÃO VAI AJUDAR EM NADA

Nas últimas horas, com o resultado nefasto das eleições para o governo do estado de São Paulo, muitos escreveram e distribuíram imagens chamando ou comparando o eleitor paulista a um burro. Eu talvez até tenha curtido algumas postagens desse tipo no Facebook. Afinal, isso serve de alívio. Traz um certo consolo. Faz com que a gente se sinta melhor. Eu entendo. Mas vamos nos acalmar!

a) Chamar o outro de burro não vai mudar o resultado eleitoral.

b) Chamar o outro de burro nos desobriga a pensar em nossos possíveis erros. Fica fácil: se o cara é burro, ele será, obviamente, impenetrável a qualquer argumento. Logo, o descarto como uma figurinha repetida do álbum da Copa.

Eu sempre brinco. Já conheci muitos ignorantes na minha vida. Mas burro. Devo ter conhecido um ou dois em toda a minha existência. E olha que já conheci muita gente. Há uma grande diferença entre os dois termos.

Por exemplo: um analfabeto é um ignorante. No sentido de que ele ignora determinado conhecimento. No caso, trata-se de um iletrado. Ele ignora os códigos formais da comunicação escrita (que são as letras que formam palavras, que formam frases) que permitem que ele decifre o que está escrito. Mas isso não o torna burro. Burro é alguém estúpido. Sem inteligência. O que não tem nada a ver com ausência da educação formal.

Mas o que leva alguém, que não possa ser classificado como burro, a votar no Sr. Geraldo Alckmin? Pensei, por ora, em duas possibilidades:

1. A imprensa tradicional, os grandes veículos de comunicação, tem uma responsabilidade imensa na reeleição de Alckmin. Afinal, nada é culpa do governador. No caso da água, por exemplo. Há racionamento em várias cidades do estado. Em várias regiões da capital desse mesmo estado. São muitos os relatos. Ainda assim, a imprensa repercute coisas do tipo: o governador nega que um racionamento esteja em estudo. Mesmo ele já estando vigente. O máximo que um jornal paulista de grande porte conseguiu fazer foi dizer que certas medidas tomadas pela Sabesp poderiam, quem sabe, supostamente, mas ainda é cedo pra afirmar, equivaler a um racionamento. No caso da corrupção em licitações e contratos do Metrô e CPTM, ambas diretamente subordinadas ao Sr. Geraldo Alckmin, tudo virou somente um cartel de empresas safadinhas. Virou Caso Alstom ou Siemens ou coisa que o valha.

2. Os resultados demonstraram, mais uma vez, que o interior do estado de São Paulo foi determinante na vitória dos tucanos. E pra qualquer um que queira bater Alckmin e sua turma, esse é um aspecto fundamental a ser considerado. O interior de São Paulo é conservador e isso casa com o modus operandi de Alckmin? Sim. Provavelmente. Mas a vida no interior é muito, muito diferente daquela, por exemplo, de quem vive na região metropolitana de São Paulo. O custo de vida, geralmente, é muito menor. São outras as necessidades. Existe, talvez, uma necessidade menor da presença estatal em áreas cruciais como, por exemplo, transporte. Os caipiras (e não uso esse termo de forma pejorativa), não custa lembrar, são os descendentes dos bandeirantes. Os líderes dessas bandeiras viraram os barões de café e depois industriais. Os liderados todo restante. Bandeiras, diferentemente das Entradas, eram empreendimentos particulares. Muitas dessas cidades do interior nasceram dessas expedições. Mais do que cidades, eram empresas. O que eu acho que já pode explicar muita coisa. Ali, o Estado não existia. Continua, em boa medida, não existindo. E como avaliar algo que nunca existiu? Pra conhecer um pouco mais essa história, fascinante e brutal, sugiro o capítulo 7 da série “O Povo Brasileiro” (inspirado no livro de mesmo nome do antropólogo Darcy Ribeiro). Alckmin, esperto como é, trabalha muito a sua hegemonia nessa região. A agenda dele é muito focada em viagens pelo interior do estado. Lembrando a todos que aqui é ele quem reina, mas não governa, é claro. Além disso, o governo estadual mantém uma relação estreita com entidades privadas que prestam serviços em diversas áreas. Entidades ligadas a políticos aliados que usam dinheiro público em ações que, frequentemente, são meras promoções pessoais. Isso acontece, por exemplo, na área da assistência social. Obviamente, sobretudo em épocas eleitorais, essa rede é usada para beneficiar determinados candidatos. Embora nefasta, é uma prática inteligente. Você anula a existência dessa coisa chamado estado/governo. Coisa com a qual, afinal, o paulista, sobretudo do interior, nunca teve muita relação mesmo. E cria um vínculo de lealdade/gratidão daquela pessoa eventualmente beneficiada por uma organização ligada a um determinado político. O genial é que esses benefícios, na maioria das vezes, serão financiados por dinheiro público. Mas a questão é que o beneficiado dificilmente saberá disso. E mais: irá maldizer o Estado pela sua, aparente, omissão. Um Estado que, ironicamente, jamais será encarnado na figura do Sr. Geraldo Alckmin. Aí entra o trabalho da mídia de colocar a culpa em outro; como, por exemplo, o ultimamente bastante sacaneado São Pedro. Em suma: há uma simbiose de interesses no interior do estado que favorecem a política de cabresto tucana no século XXI. Arruinar isso é colocar em xeque a hegemonia tucana. A questão é: como arruinar isso?

Importante. Não estou considerando, na minha análise, eleitores que, clara e diretamente, se beneficiam desse modo tucano de governar. Como, por exemplo, os milhares de servidores públicos indicados para cargos sem a exigência de qualquer concurso público. Para esses, que precisam manter os seus empregos, a motivação eleitoral é muito clara.

Acho importante que quem se importa com o tema, comece ou volte a pensar nisso se não quisermos, daqui a quatro anos, colocar (de novo) toda a culpa em eleitores que, na verdade, nem sequer conhecemos. Quantas pessoas que dizem ter votado no Alckmin você, que me lê, conhece? Aposto que pouquíssimos.

Podemos até chegar à conclusão de que essa gente que vota no Alckmin é totalmente imperscrutável aos nossos apelos e argumentos. Que nenhum diálogo é possível e tal. Que o jeito é declarar guerra. Tudo bem. Podemos concluir isso. Mas acho que devemos gastar um pouquinho de energia com o assunto.

Precisamos pensar porque tanta gente ainda vota em certos candidatos. Mesmo quando eles nos parecem as piores escolhas. Porque a imensa maioria dessas pessoas certamente não é burra. Se a considerarmos assim, estaremos fazendo uma análise preguiçosa. E burra, é claro.

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