Month: October 2014

O CINISMO DOS RICOS E DO SEU FAVORITO AÉCIO NEVES NO DESPREZO A ESSA COISA SUJA CHAMADA DINHEIRO

Aécio Neves diz, com orgulho, que quando foi governador de Minas Gerais teria aberto mão de metade do seu salário. “Eu precisava dar o exemplo”, diz o candidato. Não vou entrar no mérito se isso é verdade ou não. A questão não é essa. A questão é avaliar o que estaria por trás desse discurso, aparentemente, nobre.

O que o candidato está querendo dizer, nas entrelinhas, é o seguinte: se você fosse uma pessoa de bem, desapegada como eu sou, faria o mesmo. Ou ainda: o salário não é tão importante assim, gente! Esqueçam isso! O uso da palavra “exemplo” não é por acaso.

Aécio pode abrir mão da metade ou até integralmente do seu salário. Não tenho dúvida de que ele possa fazê-lo. Pois Aécio, mais do que uma pessoa de bem, é uma pessoa de bens. Ele não depende, nem nunca dependeu de salário pra pagar as suas contas. Ele, como se sabe, é um herdeiro.

Se você não é herdeiro, desconfie desse discurso de aparente austeridade que coloca o ônus de muitos dos nossos problemas nas costas de quem vive de salário. E não estou falando dos grandes salários da República Federativa do Brasil.

Juízes federais conseguiram, recentemente, o direito de receber auxílio-moradia de cerca de 4 mil reais por mês (inclusive, o mais absurdo da história, magistrados que atuam na cidade de origem e que possuem residência própria). Se quiser saber mais um pouco sobre o tema, clique aqui. Eles ganham de auxílio o que eu não ganho de salário. Repito: não estou falando desse tipo de aberração, falo de gente comum; sem rendas vultosas ou amigos no judiciário.

O aparente desprezo de Aécio por essa coisa chamada dinheiro tem, obviamente, muitas leituras possíveis. Algumas ocultas e outras evidentes. Uma delas, e cada um decidirá se isso estaria oculto ou bastante evidenciado, é criar uma justificativa moral para o arrocho alheio.

Não é por acaso que Aécio já nomeou, por antecipação, o seu futuro ministro da Fazenda (caso ganhe a eleição, é claro). Armínio Fraga é um notório gerente de fortunas especulativas. E pelos “bons” serviços prestados, para gente como George Soros, se tornou um homem rico.

“O salário mínimo cresceu muito ao longo dos anos”, disse Fraga. Ele defende que o salário, todo o salário e não apenas o mínimo (pense nisso, caso você imagine que isso não te diz respeito: TODO o salário), deve guardar “alguma proporção com a produtividade”.

Se aceitar essa premissa, me sentirei obrigado a perguntar: e o lucro? Ele também deve estar amparado na produtividade? Deve ter algum vínculo com a realidade que o cerca? Não foi o que vimos na Europa ou Estados Unidos nos últimos anos. A despeito de um cenário de recessão (ou algo próximo disso), os lucros ficaram protegidos do mundo real que eles ajudaram a devastar. Mas sobre lucro Armínio Fraga não especula, é claro.

Gustavo Ioschpe, “especialista” em educação de uma certa “revista”, escreve (a cada greve) pedindo que os professores abandonem a sua “obsessão” por essa coisa grotesca chamada salário. Ioschpe, curiosamente, tem a mesma obsessão, da qual ele acusa os outros, por esse ponto específico de um debate tão amplo e complexo como é o da educação.

É luminoso notar que o moço, que assim como Aécio prega o desprendimento alheio, é um homem muito rico. Ele herdou o dinheiro do papai e agora usa o seu tempo livre pra disseminar o seu desprezo por essa coisa que ele tem aos montes.

Além da violência costumeira, parte dos ricos possui uma estratégia inteligente pra manter a vergonhosa concentração de renda no Brasil mais ou menos inalterada: dizem que dinheiro não é importante, mostram até certa repulsa por ele. É uma tática diversionista cínica, mas eficaz.

Os ricos, ao menos uma parte deles, darão milhões de motivos pra justificar a desigualdade social no país (que ainda é brutal). A concentração de muito, mas muito dinheiro nas mãos de uns pouquíssimos iluminados, obviamente, nunca terá relação alguma com isso. Embora essa pareça, exatamente, a raiz ou origem do problema.

Os mais despudorados ainda dirão que não existe essa coisa de “classe social”, que todo mundo é brasileiro e que, por isso, todos teríamos os mesmos objetivos. Ou seja: o dono do banco e o caixa do banco teriam os mesmos interesses na visão (totalmente desinteressada, é claro) dessa gente. Os mais espertos, por outro lado, dirão que SOMENTE com educação de mais qualidade e tal é que a desigualdade irá diminuir.

Não nego que uma melhor formação, possa ajudar nós, plebeus, a conseguirmos um trabalho mais bem pago. Mas nem a pessoa mais educada (do ponto de vista formal) poderá fugir da lógica vigente que é: rico paga menos e pobre mais imposto no Brasil. Essa distorção sacana, além de outras, é claro, é essencial pra entendermos a desigualdade em nosso país.

Países como a Suécia e a Dinamarca, sempre apontados como modelo de tudo que é bom, bonito e limpo, muito antes de criarem um sistema educacional universalizado e de qualidade, já tinham tomado medidas no sentido de diminuir as suas desigualdades sociais.

No Capítulo 8 de “A Era das Revoluções (1789 – 1848)”, o historiador Eric Hobsbawm, com base em muita pesquisa e não em achismo (essa “ciência” tão frequente hoje em dia), escreveu que reformas da década de 1780 “aboliram o feudalismo na Dinamarca” e que por volta de 1865 esse país era, primordialmente, “de proprietários camponeses independentes” (página 246).

“Na Suécia, reformas semelhantes, porém menos drásticas, tiveram os mesmos efeitos”, garante Hobsbawm (páginas 246 e 247). Isso não significa, é claro, que os cidadãos desses países já gozassem do padrão de vida que alcançariam a partir da segunda metade do século XX.

A terra, como lembra o historiador no início do capítulo de mesmo nome, era, sem dúvida, a principal fonte de riqueza da época. “O que acontecia à terra determinava a vida e a morte da maioria do seres humanos entre 1789 e 1848”, nos lembra, na página 240, o extraordinário historiador britânico.

Esses dois países, que sempre aparecem muito bem colocados nas listas das nações com os melhores padrões de desenvolvimento, fizeram a monstruosa e temida reforma agrária há muito tempo. E como se pode ver nos dias atuais, isso levou Suécia e Dinamarca ao caos. Essas informações podem ser encontradas na 25ª edição do livro já citado (editora Paz e Terra).

Obviamente, muito da riqueza europeia é fruto do saque, inclusive ao nosso país, mas essa é outra história. O importante aqui é demonstrar que, independente do volume ou extensão dessa riqueza, os aristocratas suecos e dinamarqueses foram obrigados, pelos seus respectivos povos, ainda no século XIX, a começar a dividi-la.

Mesmo essa coisa bolivariana chamada Estados Unidos começa a sua reforma agrária em 1862. A lei que determinou isso, sancionada em 20 de maio daquele ano pelo presidente Abraham Lincoln, partia da ideia de que a terra é de quem a ocupa e trabalha nela. Para mais informações, recomendo um curto e didático texto publicado no Opera Mundi (aqui).

Nesse processo, não custa lembrar, os estadunidenses desconsideraram e massacraram os índios, que já ocupavam e trabalhavam (sem dar esse nome ao que faziam) essas mesmas terras que seriam divididas entre os recém-chegados. Além disso, os EUA presenciariam um retrocesso desse modelo ao longo do século XX.

Aécio, voltemos ao “abnegado”, pode se dar ao luxo de abrir mão de coisas mundanas como o salário. O faz como suposto exemplo de retidão. Soa, pra mim, como puro cinismo. Vou usar um termo um pouco antigo em desuso: Aécio é um demagogo.

Ele faz um voto de pobreza de mentirinha. Bem diferente do de São Francisco de Assis (que, de fato, abriu mão das suas posses). É uma estratégia baixa. Repugnante até: pretende ficar só com o voto, mas sem a pobreza.

SEGUNDO TURNO: SOBRE A COERÊNCIA OU INCOERÊNCIA DOS APOIOS

Os candidatos à presidência derrotados ou partidos que fizeram parte dessas coligações, com o início do segundo turno, começaram a declarar apoio (ou não) a um dos dois concorrentes que restam: Aécio Neves e Dilma Rousseff.

Acredito que a maioria dos eleitores, tradicionalmente, não se guia muito por essas alianças ou declarações de apoio. Por exemplo: independente do posicionamento de Marina Silva, parte dos seus eleitores já está, com certeza, determinada a votar em um ou outro candidato ou a não votar em ninguém.

Tratarei apenas das candidaturas e partidos que considero mais relevantes nessa disputa. Não irei tratar de todo mundo. Vamos lá:

Luciana Genro (PSOL) e seu partido não apoiam ninguém, mas se colocaram (claramente) contra a candidatura de Aécio “vetando-a”: COERENTE. O posicionamento de Luciana e seu partido, obviamente, tende a favorecer Dilma. Mas é coerente. Se o partido se coloca como defensor de ideias diferentes dessas duas candidaturas (PSDB e PT) não faria sentido apoiar um ou outro. O que não significa considerar as duas candidaturas como a mesma coisa. O posicionamento ativo contra Aécio significa dizer que Dilma, ainda que ruim, é menos ruim que o seu concorrente. Análise com a qual eu concordo.

Eduardo Jorge (PV) apoia Aécio Neves: COERENTE. Muita gente se disse surpresa com isso. Essas pessoas, me desculpe, são ignorantes no tema. O partido de Eduardo Jorge, ao menos em São Paulo, sempre apoiou o PSDB e aliados. Repito: sempre. E mesmo com a gestão desastrosa dos recursos hídricos aqui no estado, continua e, ao que tudo indica, continuará apoiando. Respeito Eduardo Jorge: ele foi uma das figuras mais importantes para que hoje o Brasil possa ter um Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS está longe de ser uma beleza, é claro. Mas antes nem isso nós tínhamos. Eduardo Jorge também foi Secretário do Verde e Meio Ambiente nas gestões irmãs de Serra e Kassab na prefeitura de São Paulo. Ou seja: já é aliado dessa gente faz muito tempo.

Pastor Everaldo apoia Aécio Neves: MAIS DO QUE COERENTE. Quando ele fala que vai “passar tudo” pra iniciativa privada está dizendo, de forma bem tosca, que compactua com as ideias privatizantes do candidato Aécio Neves.

PSB apoia Aécio Neves: INCOERENTE. O partido no qual Marina Silva pegou carona e se candidatou nas eleições desse ano sempre se apresentou como uma legenda com ideias bem diferentes das de Aécio Neves/PSDB. Teve entre os seus fundadores, nos anos 40 do século passado, gente brilhante como o jornalista Joel Silveira e o pensador Antonio Candido. Desde o início, se colocava como um partido da chamada esquerda democrática (que tem várias definições possíveis, mas darei uma: que se coloca em oposição, no campo da esquerda, aos, quase sempre, sectários e autoritários partidos de esquerda de orientação stalinista). Na refundação do partido, após a nossa última ditadura, um dos seus principais líderes foi Miguel Arraes. O PSB, durante muitos anos, foi aliado, no plano federal, de Lula e Dilma. Ou seja: estaria, em tese, muito mais próximo dos petistas do que dos tucanos. Contudo, talvez esse posicionamento seja coerente com as mudanças ocorridas nesse partido mais recentemente (que hoje tem cada vez mais figuras tidas, até então, como de direita em suas fileiras). Luiza Erundina, que é voz cada vez mais isolada nesse partido, se posicionou sobre esse apoio chamando-o de “incoerente” e “vexatório”. Felizmente, o PSB parece dividido (o que mostra um mínimo de coerência com a sua história).

REDE apoia Aécio Neves, branco ou nulo: TOTAL E BURRAMENTE INCOERENTE. Pega muito, mas muito mal a Rede (partido de Marina Silva que ainda não existe formalmente) ter essa postura tão, pra dizer o mínimo, ambígua. Uma postura de tamanha indecisão e covardia que quando eu a ouvi pela primeira vez, na fala de uma repórter do Jornal da Globo na madrugada de quarta pra quinta-feira (8/9 de outubro), fiquei totalmente confuso. Tentei, minutos depois, explicar a decisão da Rede pra minha esposa e não consegui. Juro! Dou um desconto porque ambos estávamos com sono. Mas lembro muito bem da sensação que o posicionamento ambíguo da Rede criou nas minhas entranhas: essa é a boa, velha e matreira “velha” política. Explico.

    1. A Rede sugere que o seu eleitor vote em Aécio… Ou não. Pode também votar em branco ou nulo. Parece uma estratégia muito esperta de não alinhamento firme com esse ou aquele candidato, mas, sempre na minha avaliação, manda uma mensagem clara quando decifrada: nós, da Rede, sempre nos apresentamos como um caminho diferente do PT e PSDB, mas, na verdade, estamos mais próximos do PSDB. Todavia, como poderia pegar mal assumir isso lhe daremos três opções com apenas um nome.
    2. Essa postura pra lá de ambígua indica um partido, e isso pode ser algo saudável, dividido. A Rede, que se apresenta desde o começo como uma “terceira via”, seria mais coerente se se posicionasse de forma neutra. Afinal, entendam, não sou eu quem diz, mas o próprio partido: somos diferentes tanto do PT quanto do PSDB. Se alguém ainda acreditava nisso (coisa na qual eu jamais acreditei), agora ficará difícil continuar com essa crença. A Rede, com essa postura, antes mesmo de nascer, ruma na direção de se tornar um partido politicamente inexpressivo (mais um entre tantas legendas nanicas ou de aluguel).

Marina Silva: quando ela se posicionar, eu me posiciono. Mas a demora não deixa de ser coerente.

SOBRE A APARENTE DISFUNCIONALIDADE DO MUNDO: CRÍTICA BEM ATRASADA AO FENÔMENO “TROPA DE ELITE”

José Padilha, com os dois filmes da série “Tropa de Elite”, foi acusado, por muitos, de ser fascista. Bobagem. Uma pena que uma palavra tão significativa seja usada de forma tão irresponsável e corriqueira. O que, aliás, tem contribuído para a sua banalização. Quem conhece a carreira de Padilha sabe que a acusação não se sustenta (sugiro pra quem ainda não viu, os documentários “Garapa” e “Ônibus 174”).

Padilha foi, no entanto, pouquíssimo acusado de ser raso. Ou seja: de oferecer pouca ou limitada crítica nesses dois filmes. E essa, na minha avaliação, seria uma acusação mais justa. Gosto de alguns aspectos desses filmes. Esteticamente, adicionou algo ao padrão iniciado por “Cidade de Deus” (hoje, convenhamos, mais do que desgastado).

Mas no campo da narrativa, nenhuma novidade. Embora seja compreensível a opção do Capitão Nascimento narrar os fatos. Padilha deixa claro, com isso, que é o ponto de vista do matador e não dele o fio condutor da história. Repito: gosto de alguns aspectos desses dois filmes.

No primeiro, Capitão Nascimento fala da guerra entre policiais e traficantes (na verdade, meros atravessadores; mas aí já é outra história). No segundo, o mesmo Capitão “descobre”, embora isso já esteja sugerido no primeiro, que policiais corruptos fazem negócios com traficantes e, às vezes, ocupam o seu lugar. E que, a partir daí, os novos donos desses territórios logo se associam a políticos e transformam essas regiões em currais eleitorais.

Nas eleições desse ano, candidatos no estado do Rio de Janeiro denunciaram que, em certas áreas, só era permitida campanha de determinadas pessoas. Ou seja: a denúncia do segundo “Tropa” é atual e certeira. Lamentei que Padilha não sinalizasse, ao menos na época, com um terceiro filme.

Sugeri, só na minha cabeça, é claro, até um esboço de roteiro para o fim da trilogia: agora o Capitão Nascimento avançaria mais em sua crítica e “descobriria” a relação entre políticos (que pareciam ser o ponto mais alto de todo o esquema) e a iniciativa privada (que investe nessa gentalha – e o termo investimento não é descuido – para ganhar muito dinheiro em futuras licitações e contratos públicos milionários).

Todavia, o grande furo crítico de Padilha não é a necessidade de, talvez, avançar. Mas sim de recuar. E assim conseguir ter uma visão melhor do todo. Nos dois “Tropas”, embora fique claro quem mais ou menos se beneficia de toda a bandalheira, o mundo, no caso o Brasil, nos é apresentado como algo totalmente disfuncional. A sensação, ao menos eu senti isso na época, é essa.

Usemos a polícia como exemplo, é claro. A maneira como a polícia brasileira foi constituída não favorece que ela possa investigar os crimes. O que soa surpreendente, afinal, não seria essa a missão principal dessa instituição? E quando investiga, a resolução desses crimes é baixa. Isso não se dá pelo acaso. É mera consequência do modelo de polícia que nós temos.

A polícia, no Brasil, foi criada como um aparelho quase que exclusivamente repressivo (e não investigativo ou preventivo). A sua estruturação nos moldes militares se justifica plenamente dentro dessa lógica. Trata-se de uma força de quase permanente ocupação. Sobretudo nos territórios mais pobres do país.

Uso o fenômeno “Tropa de Elite” pra contestar a afirmação de que o Brasil não deu certo. Não há, em qualquer parte do planeta, um país do nosso porte (em termos econômicos e populacionais), no qual a concentração de renda seja tão brutal. O modelo pensando pela nossa elite, nesse sentido, é um sucesso estrondoso. A disfunção é só aparente, ela tem uma função clara.

As consequências desse modelo de país são sentidas pela maioria e cria, naturalmente, uma sensação de caos. É um equívoco. Caos significa confusão, desordem. Nossa elite não está nada confusa quanto a sua missão nessa terra ou ao seu eterno direito ao saque. Há método na “bagunça”.

CHAMAR O ELEITOR DE BURRO NÃO VAI AJUDAR EM NADA

Nas últimas horas, com o resultado nefasto das eleições para o governo do estado de São Paulo, muitos escreveram e distribuíram imagens chamando ou comparando o eleitor paulista a um burro. Eu talvez até tenha curtido algumas postagens desse tipo no Facebook. Afinal, isso serve de alívio. Traz um certo consolo. Faz com que a gente se sinta melhor. Eu entendo. Mas vamos nos acalmar!

a) Chamar o outro de burro não vai mudar o resultado eleitoral.

b) Chamar o outro de burro nos desobriga a pensar em nossos possíveis erros. Fica fácil: se o cara é burro, ele será, obviamente, impenetrável a qualquer argumento. Logo, o descarto como uma figurinha repetida do álbum da Copa.

Eu sempre brinco. Já conheci muitos ignorantes na minha vida. Mas burro. Devo ter conhecido um ou dois em toda a minha existência. E olha que já conheci muita gente. Há uma grande diferença entre os dois termos.

Por exemplo: um analfabeto é um ignorante. No sentido de que ele ignora determinado conhecimento. No caso, trata-se de um iletrado. Ele ignora os códigos formais da comunicação escrita (que são as letras que formam palavras, que formam frases) que permitem que ele decifre o que está escrito. Mas isso não o torna burro. Burro é alguém estúpido. Sem inteligência. O que não tem nada a ver com ausência da educação formal.

Mas o que leva alguém, que não possa ser classificado como burro, a votar no Sr. Geraldo Alckmin? Pensei, por ora, em duas possibilidades:

1. A imprensa tradicional, os grandes veículos de comunicação, tem uma responsabilidade imensa na reeleição de Alckmin. Afinal, nada é culpa do governador. No caso da água, por exemplo. Há racionamento em várias cidades do estado. Em várias regiões da capital desse mesmo estado. São muitos os relatos. Ainda assim, a imprensa repercute coisas do tipo: o governador nega que um racionamento esteja em estudo. Mesmo ele já estando vigente. O máximo que um jornal paulista de grande porte conseguiu fazer foi dizer que certas medidas tomadas pela Sabesp poderiam, quem sabe, supostamente, mas ainda é cedo pra afirmar, equivaler a um racionamento. No caso da corrupção em licitações e contratos do Metrô e CPTM, ambas diretamente subordinadas ao Sr. Geraldo Alckmin, tudo virou somente um cartel de empresas safadinhas. Virou Caso Alstom ou Siemens ou coisa que o valha.

2. Os resultados demonstraram, mais uma vez, que o interior do estado de São Paulo foi determinante na vitória dos tucanos. E pra qualquer um que queira bater Alckmin e sua turma, esse é um aspecto fundamental a ser considerado. O interior de São Paulo é conservador e isso casa com o modus operandi de Alckmin? Sim. Provavelmente. Mas a vida no interior é muito, muito diferente daquela, por exemplo, de quem vive na região metropolitana de São Paulo. O custo de vida, geralmente, é muito menor. São outras as necessidades. Existe, talvez, uma necessidade menor da presença estatal em áreas cruciais como, por exemplo, transporte. Os caipiras (e não uso esse termo de forma pejorativa), não custa lembrar, são os descendentes dos bandeirantes. Os líderes dessas bandeiras viraram os barões de café e depois industriais. Os liderados todo restante. Bandeiras, diferentemente das Entradas, eram empreendimentos particulares. Muitas dessas cidades do interior nasceram dessas expedições. Mais do que cidades, eram empresas. O que eu acho que já pode explicar muita coisa. Ali, o Estado não existia. Continua, em boa medida, não existindo. E como avaliar algo que nunca existiu? Pra conhecer um pouco mais essa história, fascinante e brutal, sugiro o capítulo 7 da série “O Povo Brasileiro” (inspirado no livro de mesmo nome do antropólogo Darcy Ribeiro). Alckmin, esperto como é, trabalha muito a sua hegemonia nessa região. A agenda dele é muito focada em viagens pelo interior do estado. Lembrando a todos que aqui é ele quem reina, mas não governa, é claro. Além disso, o governo estadual mantém uma relação estreita com entidades privadas que prestam serviços em diversas áreas. Entidades ligadas a políticos aliados que usam dinheiro público em ações que, frequentemente, são meras promoções pessoais. Isso acontece, por exemplo, na área da assistência social. Obviamente, sobretudo em épocas eleitorais, essa rede é usada para beneficiar determinados candidatos. Embora nefasta, é uma prática inteligente. Você anula a existência dessa coisa chamado estado/governo. Coisa com a qual, afinal, o paulista, sobretudo do interior, nunca teve muita relação mesmo. E cria um vínculo de lealdade/gratidão daquela pessoa eventualmente beneficiada por uma organização ligada a um determinado político. O genial é que esses benefícios, na maioria das vezes, serão financiados por dinheiro público. Mas a questão é que o beneficiado dificilmente saberá disso. E mais: irá maldizer o Estado pela sua, aparente, omissão. Um Estado que, ironicamente, jamais será encarnado na figura do Sr. Geraldo Alckmin. Aí entra o trabalho da mídia de colocar a culpa em outro; como, por exemplo, o ultimamente bastante sacaneado São Pedro. Em suma: há uma simbiose de interesses no interior do estado que favorecem a política de cabresto tucana no século XXI. Arruinar isso é colocar em xeque a hegemonia tucana. A questão é: como arruinar isso?

Importante. Não estou considerando, na minha análise, eleitores que, clara e diretamente, se beneficiam desse modo tucano de governar. Como, por exemplo, os milhares de servidores públicos indicados para cargos sem a exigência de qualquer concurso público. Para esses, que precisam manter os seus empregos, a motivação eleitoral é muito clara.

Acho importante que quem se importa com o tema, comece ou volte a pensar nisso se não quisermos, daqui a quatro anos, colocar (de novo) toda a culpa em eleitores que, na verdade, nem sequer conhecemos. Quantas pessoas que dizem ter votado no Alckmin você, que me lê, conhece? Aposto que pouquíssimos.

Podemos até chegar à conclusão de que essa gente que vota no Alckmin é totalmente imperscrutável aos nossos apelos e argumentos. Que nenhum diálogo é possível e tal. Que o jeito é declarar guerra. Tudo bem. Podemos concluir isso. Mas acho que devemos gastar um pouquinho de energia com o assunto.

Precisamos pensar porque tanta gente ainda vota em certos candidatos. Mesmo quando eles nos parecem as piores escolhas. Porque a imensa maioria dessas pessoas certamente não é burra. Se a considerarmos assim, estaremos fazendo uma análise preguiçosa. E burra, é claro.