Month: September 2014

POR FAVOR, NÃO SEJA IDIOTA COMO EU FUI. NÃO ACREDITE NAS PESQUISAS!

1998. Foi quando eu parei de acreditar em pesquisas. Principalmente eleitorais. Sobretudo vindas de um certo Datafolha. Em deus eu já não acreditava desde o ano anterior.

Em 2 de outubro de 1998, a dois dias do pleito, foi divulgada uma pesquisa, pelo instituto já citado, com o seguinte e aterrador cenário na disputa pelo governo do estado de São Paulo: Paulo Maluf (31%), Francisco Rossi (18%), Mario Covas (17%), Marta Suplicy (15%) e Orestes Quércia (6%).

Como a nossa imprensa alardeou (BASTANTE) na época, corríamos o risco de ter um segundo turno entre Maluf e Rossi. Realmente, um horror. Muitos, como eu, foram ingênuos em acreditar nesses números. Votei em Mario Covas pensando que, ao menos, teríamos uma figura um tiquinho menos nefasta pra derrotar Maluf no segundo turno.

Os resultados oficiais, no entanto, foram bem diferentes. Se não acredita, basta checar os números na página do Tribunal Superior Eleitoral. Maluf continuaria na frente (com 32,21%), Covas (e não Rossi) ficaria em segundo (22,95%) com Marta coladinha na terceira posição (22,5%).

Marta Suplicy, afinal, tinha bem mais do que os 15% propagandeados pelo Datafolha horas antes da votação do primeiro turno. Rossi, apontado como segundo colocado pelo mesmo instituto de pesquisa, agora aparecia em um solitário quarto lugar (com 17,11%). Quércia estava, de fato, na rabeira da disputa (4,29%).

Covas foi para o segundo turno graças a uma vantagem de apenas 0,45% dos votos válidos em relação a sua concorrente Marta Suplicy. Exatos 74 mil 436 votos de diferença (o que é pouquíssimo considerando que São Paulo é o maior colégio eleitoral do país). Eu, como era ingênuo e bobinho, contribui pra isso com um votinho. Rimo pra não chorar. Mas eu aprendo com os meus erros. E isso jamais se repetirá.

O sociólogo e jornalista Laurindo Lalo Leal Filho lembrou dessa história no artigo “As pesquisas como elas são, a mídia como ela é”. O professor de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) avalia que as pesquisas “são cada vez mais importantes para o direcionamento das doações dirigidas às diferentes campanhas.” E acrescenta:

Prestam-se também para influenciar eleitores indecisos ou determinados a mudar o voto na última hora, deixando de lado a escolha inicial e optando por outra, não tanto de sua predileção, mas capaz de evitar o sucesso do maior adversário, criando o chamado “voto útil”. Sem falar na desmobilização de militantes antes do fim do pleito ao verem seu candidato desabando nas pesquisas.

A última pesquisa do Ibope, divulgada na terça-feira (23/09), afirma que o governador Geraldo Alckmin seria reeleito no primeiro turno. É possível? Claro que é. Eu devo acreditar nisso. Claro que não. Devo, na verdade, ignorar isso.

De acordo com o próprio Ibope (vamos lhe dar um voto de confiança), teriam sido ouvidos 2.002 eleitores, entre os dias 20 e 22 de setembro, em 96 municípios do estado de São Paulo. O levantamento foi encomendado pela TV Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo. Não é um dado desprezível saber quem pagou a conta.

Eu não estudei a fundo a metodologia utilizada nessa pesquisa. Mas façamos uma conta rápida: 2.002 eleitores de 96 municípios significam, em média, 20,85 eleitores ouvidos em cada cidade. Isso mesmo: 20 ou 21 pessoas (arredondando pra baixo ou pra cima) por cidade. Isso, convenhamos, não é lá um número muito significativo.

Ou seja: ainda que a pesquisa siga procedimentos éticos rigorosos, o universo analisado, quase sempre, será muito, mas muito restrito. Não confie em pesquisas do tipo. Mesmo as mais honestas, obviamente, têm uma série de limitações metodológicas. Vote em quem você tem vontade de votar. Isso é o que eu, hoje, chamo de “voto útil”.