CHAME DE IDEALISMO

É possível prever pra onde caminha a humanidade? E se isso for possível, teríamos como alterar o seu rumo? Caso a maioria de nós entendesse, é claro, que a direção tomada é desastrosa para o futuro da espécie. E levando em conta, obviamente, que a maior parte dos transitórios habitantes desse planeta se importe com isso.

Cito apenas dois assuntos do nosso tempo potencialmente nocivos para o futuro dessa coisa chamada humanidade: aquecimento global e aumento da desigualdade social. Tanto o primeiro quanto o segundo, qualquer pessoa minimamente honesta irá concordar, poderão ter consequências nefastas para a vida humana na Terra.

No caso do primeiro: é razoavelmente aceita a ideia de que já não seria possível impedir o aumento do aquecimento global, mas apenas minimizar os seus danos. Para mais informações, sugiro o site do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (que pesquisa mudanças do clima, como o seu nome indica, em escala global).

http://www.ipcc.ch/

A segunda questão ficou ainda mais evidente com o lançamento do livro “O Capital no Século XXI”. Na obra, o economista francês Thomas Piketty demonstra, de forma muito bem embasada, que o mundo caminha, com bastante vigor, na direção do aumento da desigualdade social.

http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/as-revelacoes-de-o-capital-no-seculo-xxi/

E a menos que façamos alguma coisa esses serão os resultados mais prováveis nas próximas décadas: um planeta mais quentinho e mais pobrinho pra maioria. Mas será possível alterar o rumo de processos tão complexos? Ou conseguir ter alguma incidência em aspectos tão colossais da nossa época?

Karl Marx achava que sim. Embora, inteligente como era, alertasse que não deveríamos ignorar o contexto no qual estamos inseridos. No texto “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, o alemão, que não teve nada a ver com a goleada sobre o Brasil por 7 a 1, escreveu:

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

No campo da ficção, Isaac Asimov também abordou essa temática. Na trilogia “A Fundação”, Asimov fala de um fictício Império Galáctico. A história se passa milhares de anos à frente do nosso tempo. Tão distante dos dias de hoje que os nossos descendentes nem mesmo se recordam que a origem da civilização humana foi nesse pequeno planeta que chamamos de Terra.

Na história, um renomado cientista, Dr. Hari Seldon, acredita que o Império cairá. E que a ruína, mesmo que se façam todos os esforços possíveis, é inevitável. Caberia ao ser humano, portanto, apenas minimizar, ao máximo, as consequências do período de anarquia que virá.

O projeto desse cientista é o de elaborar uma Enciclopédia Galáctica (que irá reunir todo o conhecimento acumulado até aquele momento pelo homem). Algo como, talvez, a internet? A trilogia foi lançada, originalmente, entre os anos de 1942 e 1953. Assim, quando tiver início o período de anarquia (Asimov usa esse termo), a base do conhecimento humano estará preservada para gerações futuras.

Asimov, pra escrever essa trilogia, se inspirou na história do Império Romano. Mais especificamente no livro “A História do Declínio e Queda do Império Romano”, do historiador inglês Edward Gibbon. Ao longo dessa trilogia, no entanto, descobriremos que há um objetivo oculto por trás do projeto original de Hari Seldon (sendo, no entanto, complementar ao objetivo confesso).

Em “A Fundação”, Seldon é o criador da “psico-história”. Trata-se, como Asimov a descreve, de um “ramo da matemática que trata das reações dos conglomerados humanos a estímulos sociais e econômicos fixos”. Ou seja: é uma ciência que tenta entender como irá se comportar grandes montantes populacionais a partir de uma série de variáveis (coisa gigantesca: de bilhões, trilhões, quatrilhões de indivíduos).

Na contracapa da nova edição do livro, lançado pela Editora Aleph, o economista Paul Krugman (Prêmio Nobel de 2008) fala do impacto que a obra teve em sua vida:

Há uma série muito antiga de Isaac Asimov – os romances da Fundação – na qual os cientistas sociais entendem a verdadeira dinâmica da civilização e a salvam. Isso é o que eu queria ser. E isso não existe, mas a economia é o mais próximo que se pode chegar. Então, como eu era um adolescente, embarquei nessa.

http://www.editoraaleph.com.br/site/ficcao/trilogia-da-fundac-o-box.html

Eu já não sou adolescente há algum tempo, mas também embarquei, de outra maneira, nessa doideira. O Dr. Hari Seldon, é importante ressaltar, jamais verá o resultado da sua ambiciosa empreitada. Há um belo diálogo sobre isso (que eu não vou dizer em que situação ocorre pra não estragar a surpresa de quem um dia vier a ler “A Fundação”):

-Dos quatrilhões que vivem hoje, ninguém, entre todas as estrelas da Galáxia, estará vivo daqui a um século. Por que, então, deveríamos nos preocupar com acontecimentos de daqui a três séculos?

-Eu não estarei vivo daqui a meia década – disse Seldon – e, não obstante, isso é de uma preocupação fundamental para mim. Chame de idealismo. Chame de uma identificação minha com a da generalização mística à qual nos referimos pelo termo “humanidade”.

Volto aos dois questionamentos do parágrafo inicial. É possível prever pra onde caminha a humanidade? E se isso for possível, teríamos como alterar o seu rumo? Acho que sim. Não custa tentar. Quer dizer: custa sim. Tenta se manifestar no Rio, em São Paulo ou em qualquer outro lugar do país pra ver o que acontece.

No momento, o poder das partes em luta é bastante desproporcional. E há, obviamente, grande interesse, de determinados setores da sociedade, em não apenas manter tudo como está, mas de ampliar a sua hegemonia e radicalizar o modelo vigente. Repito (e insisto): no momento.

Chame isso de idealismo, ingenuidade ou dê qualquer outro nome. Pouco importa. Mas, pra mim, assim como para o personagem de Asimov, essa é “uma preocupação fundamental”.

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